Novo estudo revela: colonizadores britânicos levaram o vírus da varíola para a Austrália, matando centenas de milhares de pessoas

Apenas 16 meses após a chegada da Primeira Frota britânica à região de Sydney, uma epidemia de varíola atingiu duramente os povos aborígenes.

Apenas 16 meses após a chegada da Primeira Frota britânica à região de Sydney, uma epidemia de varíola atingiu duramente os povos aborígenes. Mais de dois séculos depois, um estudo com modelos matemáticos aponta que o vírus provavelmente chegou com os colonizadores e pode ter causado até 220 mil mortes ao longo de décadas.

Os navios transportavam o chamado material varioloso, formado por amostras contaminadas usadas em um antigo procedimento de inoculação.
Os navios transportavam o chamado material varioloso, formado por amostras contaminadas usadas em um antigo procedimento de inoculação. - Imagem gerada por IA

O que o novo estudo descobriu?

A pesquisa foi publicada em julho de 2026 na revista científica Nature Human Behaviour. Liderado por Matthew Cody Nitschke e assinado por especialistas em modelagem, arqueologia e história indígena, o trabalho analisou como a varíola poderia ter circulado entre comunidades conectadas por rotas de comércio, cerimônias e deslocamentos.

Os resultados indicam que o surto começou na área de Sydney, próximo ao assentamento britânico estabelecido em 1788. De acordo com os pesquisadores, não existia uma rota plausível para que a doença viajasse do extremo norte australiano até o sudeste a tempo de provocar a epidemia registrada em abril de 1789.

Modelos matemáticos comprovam início da varíola na região de Sydney.
Modelos matemáticos comprovam início da varíola na região de Sydney. - Imagem gerada por IA.

Por que a origem da varíola era controversa?

Durante décadas, uma das principais hipóteses afirmava que a varíola havia chegado ao norte da Austrália com pescadores e comerciantes de Makassar, região da atual Indonésia. A doença teria avançado pelo continente por redes indígenas até alcançar Sydney justamente após a chegada dos navios britânicos.

Essa explicação ganhou força porque não há registros de casos ativos de varíola entre os passageiros da Primeira Frota. O novo modelo, porém, mostrou que distâncias enormes, áreas pouco habitadas e o tempo necessário para a transmissão tornam improvável que um surto iniciado no norte provocasse a epidemia observada em Sydney.

Como o vírus pode ter chegado com os britânicos?

Os navios transportavam o chamado material varioloso, formado por amostras contaminadas usadas em um antigo procedimento de inoculação. Antes do desenvolvimento da vacina moderna, médicos utilizavam esse material para tentar produzir proteção contra a doença. Entre os pontos considerados pelos pesquisadores estão:

  • A Primeira Frota chegou à Austrália em janeiro de 1788
  • A epidemia foi identificada na região de Sydney em abril de 1789
  • Os médicos britânicos carregavam amostras ligadas ao vírus da varíola
  • O modelo apontou forte compatibilidade com uma origem no assentamento colonial

O arqueólogo Alan Williams sugeriu que as amostras poderiam ter sido renovadas nas escalas da viagem, como Rio de Janeiro ou Cidade do Cabo. Mesmo assim, o estudo não determina como ocorreu a transmissão inicial nem prova uma liberação intencional. Os autores reconhecem que o material pode ter escapado acidentalmente.

Amostras biológicas em navios coloniais podem ter deflagrado o contágio.
Amostras biológicas em navios coloniais podem ter deflagrado o contágio. - Imagem gerada por IA.

Qual pode ter sido a dimensão da epidemia?

Segundo as simulações, a varíola pode ter avançado por áreas costeiras e grandes rios, alcançando regiões distantes de Sydney e permanecendo em circulação por até 21 anos. O modelo estima que a doença talvez tenha chegado às proximidades de Townsville, no norte, e de Adelaide, no oeste, sem atingir todo o continente.

Com base em reconstruções recentes da população indígena anterior à colonização, os pesquisadores calcularam um total de até 220 mil mortes. A estimativa é superior a interpretações históricas mais antigas, que partiram de levantamentos realizados depois de décadas de epidemias, deslocamentos forçados e violência colonial.

A descoberta muda a história da colonização australiana

A epidemia não provocou apenas uma perda populacional imensa. A morte de idosos, crianças e outros membros centrais das comunidades interrompeu a transmissão de idiomas, conhecimentos, relações familiares e práticas de cuidado com o território. Ainda assim, os pesquisadores destacam que os povos aborígenes resistiram e mantiveram vínculos culturais com suas terras.

O estudo oferece a evidência mais forte até agora de que a primeira grande epidemia de varíola entre os indígenas de Sydney esteve ligada à presença britânica. Reconhecer esse impacto é urgente para compreender a colonização além dos relatos oficiais e valorizar as memórias das comunidades que enfrentaram a doença sem perder sua identidade.