O animal que parece frágil, vive quase parado e ainda assim possui uma das estratégias de sobrevivência mais eficientes do oceano
Algumas espécies de pepino-do-mar enfrentam predadores com estratégias extremas, que vão de tubos pegajosos à expulsão e regeneração de órgãos.
No fundo do oceano, o pepino-do-mar avança devagar, não possui garras e parece oferecer pouca resistência a um predador. Essa aparência esconde defesas capazes de interromper um ataque de modo drástico. Algumas espécies lançam tubos pegajosos, enquanto outras expulsam parte dos órgãos internos e depois os regeneram. Não se trata de um truque usado por todos os integrantes do grupo nem de uma reaçã

o sem custo. É uma estratégia extrema, apoiada por uma capacidade de reparo que transforma um animal aparentemente vulnerável em um sobrevivente difícil de capturar.
Por que o pepino-do-mar parece tão indefeso?
O pepino-do-mar é um equinodermo, parente das estrelas e dos ouriços-do-mar. Seu corpo alongado tem uma parede muscular recoberta por pele e pequenas estruturas calcárias, mas não apresenta a carapaça rígida que muitas pessoas esperam encontrar num animal marinho. Ele vive principalmente sobre ou dentro do sedimento e se desloca lentamente com pés ambulacrais.
A lentidão combina com o modo de alimentação. Muitos recolhem partículas orgânicas do fundo usando tentáculos ao redor da boca; outros filtram material suspenso na água. Em vez de perseguir presas, processam sedimentos e devolvem nutrientes ao ambiente. Esse trabalho discreto ajuda a explicar sua importância ecológica, embora também os deixe expostos a peixes, crustáceos, estrelas-do-mar e outros predadores.

Quais defesas aparecem quando o perigo se aproxima?
A resposta depende da espécie. Alguns pepinos-do-mar endurecem ou amolecem rapidamente a parede corporal, procuram uma fenda ou liberam compostos desagradáveis. Outros contam com estruturas internas associadas ao sistema respiratório, chamadas túbulos de Cuvier, que podem ser projetadas pela abertura posterior e formar uma massa aderente sobre o agressor.
As principais estratégias não devem ser tratadas como se ocorressem todas ao mesmo tempo:
- Contração do corpo e busca de abrigo entre rochas ou no sedimento.
- Alteração da rigidez da parede corporal para dificultar a captura.
- Liberação de substâncias químicas que afastam certos predadores.
- Expulsão de túbulos pegajosos em espécies que possuem essas estruturas.
- Evisceração de órgãos internos, seguida de regeneração gradual.
Expulsar órgãos realmente ajuda a escapar?
Em algumas espécies, sim. A evisceração elimina partes do sistema digestório e outros tecidos pela boca ou pela abertura posterior, dependendo do grupo. O material expelido pode distrair o predador, reduzir o que ele consegue agarrar ou acompanhar substâncias defensivas. Já os túbulos de Cuvier aderem ao atacante e podem imobilizar pequenas estruturas, criando tempo para o pepino-do-mar se afastar.
Os dois fenômenos são frequentemente confundidos, mas não são idênticos. Lançar túbulos pegajosos não significa necessariamente perder o intestino, e nem todo pepino-do-mar possui esses tubos. A resposta também pode ocorrer diante de estresse intenso, inclusive manipulação humana. Por isso, tocar ou apertar o animal apenas para provocar a defesa causa dano e não deve ser tratado como curiosidade inofensiva.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Pidobiologia, que fala sobre as defesas do pepino-do-mar e explica a diferença entre liberar estruturas pegajosas e expulsar órgãos internos:
https://www.youtube.com/watch?v=-wjIqPNyNHo
Como o corpo se recupera depois da perda?
A regeneração começa com o fechamento da área lesionada e a reorganização dos tecidos que permaneceram. Células mudam de função, proliferam e formam novamente partes do tubo digestório ao longo de dias ou semanas. O processo passa por fases, e o órgão reconstruído precisa recuperar estrutura e funcionamento. O tempo varia com a espécie, a temperatura, a alimentação, o tamanho do animal e a extensão do dano.
Essa recuperação não é gratuita. Enquanto regenera órgãos, o pepino-do-mar redistribui energia e pode reduzir alimentação, crescimento ou reprodução. A defesa só é eficiente porque a perda aumenta a chance de sobreviver a um ataque imediato. O comportamento que permite expulsar os próprios órgãos não torna o animal indestrutível.
Por que preservar esse animal quase imóvel?
Pepinos-do-mar revolvem o sedimento, consomem matéria orgânica e liberam nutrientes que voltam a circular no ecossistema. Sua atividade altera a química do fundo e pode beneficiar comunidades de microrganismos e outros animais. Quando populações são retiradas em excesso, esse serviço ecológico também diminui.
A estratégia extrema de defesa chama atenção, mas não resume a importância do grupo. O que parece um corpo frágil combina química, tecidos ajustáveis e regeneração com um papel constante na manutenção do fundo marinho. Sobreviver devagar não significa viver sem recursos: significa investir em respostas capazes de compensar a ausência de velocidade, dentes ou armadura.