O animal que rouba partes de plantas para produzir seu próprio alimento usando a luz do sol

Algumas lesmas-do-mar conseguem aproveitar cloroplastos de algas ingeridas para realizar fotossíntese temporariamente.

Um animal pequeno e verde pode guardar dentro das próprias células partes retiradas das algas que come. Algumas lesmas-do-mar mantêm cloroplastos funcionando depois da digestão, aproveitando energia da luz por um período. O fenômeno, chamado cleptoplastia, parece desafiar a separação habitual entre animais e plantas, mas não transforma a lesma numa planta independente de alimento. Uma pesquisa de 2025 investigou como as estruturas roubadas são mantidas. O que acontece com os cloroplastos quando passam a viver num corpo que não os fabricou?

A cleptoplastia permite que estruturas fotossintéticas funcionem temporariamente dentro desses animais.
A cleptoplastia permite que estruturas fotossintéticas funcionem temporariamente dentro desses animais.Imagem gerada por inteligência artificial

O que exatamente a lesma retira das algas?

Cloroplastos são estruturas celulares nas quais ocorre a fotossíntese. Certas lesmas sacoglossas perfuram algas e sugam seu conteúdo, retendo parte desses cloroplastos em suas células. Não roubam uma planta inteira nem herdam automaticamente os organelos como uma característica permanente dos descendentes. Cada indivíduo os adquire durante a alimentação.

A biologia surpreendente de certas lesmas marinhas oferece outra janela para esse grupo, embora regeneração e cleptoplastia sejam fenômenos diferentes. Neste caso, o detalhe decisivo é a conservação temporária de estruturas fotossintéticas no tecido animal depois que o resto da alga foi consumido.

A luz solar contribui para processos metabólicos de determinadas lesmas marinhas.
A luz solar contribui para processos metabólicos de determinadas lesmas marinhas.Imagem gerada por inteligência artificial

Como a fotossíntese continua funcionando?

Sob luz, cloroplastos retidos podem usar energia luminosa para produzir compostos orgânicos. A capacidade varia entre espécies e depende de quanto tempo os organelos continuam íntegros. Chamar a lesma de “movida a energia solar” é uma metáfora útil apenas se lembrarmos que ela também se alimenta e possui necessidades que a luz não supre sozinha.

A sequência observada começa com alimentação e termina com estruturas temporariamente retidas. Não se trata de uma mudança genética que faça a lesma nascer fotossintética. Os passos principais são:

  • A lesma se alimenta de uma alga que contém cloroplastos.
  • Parte das estruturas é retida em células do animal.
  • Os cloroplastos preservados podem manter atividade sob luz.
  • O benefício e a duração variam conforme espécie e condições.

O que a pesquisa de 2025 acrescentou?

Um estudo publicado na revista Cell investigou a integração dos cloroplastos retidos a estruturas da célula hospedeira. Os pesquisadores descreveram um organelo do animal associado à manutenção dessas peças fotossintéticas, oferecendo uma explicação celular para sua sobrevivência além do tempo esperado. Isso não significa que todos os problemas de longo prazo da cleptoplastia tenham sido resolvidos.

A pergunta central é como um cloroplasto continua funcional fora da célula da alga que normalmente o sustenta. A luz é apenas uma parte da equação. O organelo também precisa conservar componentes internos, evitar danos e interagir com a célula que o abriga, mesmo depois de separado do metabolismo original da alga. Essas exigências tornam a retenção prolongada uma questão celular complexa. A pesquisa examinou essa interface entre material adquirido e célula animal. O resultado vai além de fotografar uma lesma verde: aproxima cientistas dos mecanismos de conservação e proteção das estruturas roubadas.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube biolopes, que resolve uma questão de biologia sobre cloroplastos retidos por lesmas-do-mar:

A lesma pode viver só de luz?

Não há base para afirmar que qualquer dessas lesmas dispense alimentação por toda a vida. A fotossíntese pode contribuir com recursos sob determinadas condições, mas o animal precisa adquirir os cloroplastos comendo algas e continua sujeito a necessidades metabólicas. A intensidade do benefício é assunto de pesquisa e não deve ser medida apenas pela cor verde do corpo.

Também é preciso distinguir duração da atividade fotossintética e sobrevivência do animal em jejum. Uma lesma pode resistir sem comida por algum tempo por diferentes razões. Para atribuir esse desempenho aos cloroplastos, estudos precisam comparar luz, alimentação, integridade das estruturas e estado fisiológico. Espécies distintas podem conservar cloroplastos por períodos diferentes, e nem toda lesma verde demonstra a mesma contribuição energética. Essas diferenças impedem uma explicação única para o grupo inteiro.

Por que o fenômeno interessa à biologia?

A cleptoplastia mostra que a relação entre organismos pode continuar dentro de uma célula após uma refeição. A lesma não desenvolveu cloroplastos como uma planta, mas encontrou meios de conservá-los temporariamente. Esse arranjo oferece pistas sobre integração celular, defesa de organelos e limites da fotossíntese fora do organismo original.

O encanto do caso vem justamente da precisão: uma parte da alga permanece ativa dentro do animal, sem apagar sua identidade de lesma. O “roubo” não é um truque sobrenatural, mas uma sequência de alimentação, retenção e funcionamento que a pesquisa de 2025 começou a detalhar em nível celular.