O esporte mais absurdo dos anos 1960 colocava mergulhadores contra polvos gigantes e chegou a atrair milhares de espectadores

Nos anos 1960, mergulhadores competiam para retirar polvos gigantes de suas tocas em um esporte hoje visto como cruel e estranho.

Em abril de 1963, 111 mergulhadores entraram nas águas de Puget Sound, no estado de Washington, para um campeonato que hoje parece ficção: retirar polvos gigantes do Pacífico de suas tocas e levá-los à superfície. Cerca de 5 mil pessoas acompanharam a disputa, e 25 animais foram capturados. Chamado de luta com polvos, o esporte não colocava dois rivais trocando golpes. Era uma caça competitiva transformada em espetáculo, nascida da popularização do mergulho recreativo e de uma relação com a fauna marinha muito diferente da atual.

Conhecimento sobre cefalópodes mudou a forma de enxergar antigos campeonatos com polvos.
Conhecimento sobre cefalópodes mudou a forma de enxergar antigos campeonatos com polvos.Imagem gerada por inteligência artificial

Como surgiu uma competição tão improvável?

Depois da Segunda Guerra Mundial, equipamentos de mergulho ficaram mais acessíveis e clubes se multiplicaram na costa oeste dos Estados Unidos. Puget Sound oferecia águas frias, costões rochosos e polvos gigantes do Pacífico, Enteroctopus dofleini. O clube Puget Sound Mudsharks organizou campeonatos anuais perto de Tacoma, misturando caça submarina, festa comunitária e demonstração de habilidade.

Reportagens sobre a prática aparecem desde o fim da década de 1940, mas os anos 1960 marcaram o auge. Rádio, jornais e televisão local ampliavam o público. Participantes competiam individualmente e em equipes, com categorias que consideravam equipamento de respiração e peso do animal. O nome “luta” acrescentava drama, embora o polvo normalmente tentasse se esconder, agarrar pedras ou fugir.

Competições já arrancaram polvos gigantes de tocas para pesagem diante de multidões.
Competições já arrancaram polvos gigantes de tocas para pesagem diante de multidões.Imagem gerada por inteligência artificial

O que os mergulhadores faziam debaixo d’água?

Os competidores procuravam entradas de tocas, alcançavam o animal e tentavam desprender ventosas e braços das rochas. Depois, levavam-no até a praia para pesagem. A força do polvo vinha de oito braços musculosos e centenas de ventosas, não de comportamento agressivo planejado. Em 1963, os capturados pesaram de cerca de 1,8 a 25,9 quilos.

O espetáculo reunia elementos que hoje causam desconforto:

  • Animais eram removidos de abrigos para produzir pontuação e entretenimento.
  • O maior exemplar definia prestígio, incentivando busca pelos adultos mais robustos.
  • Alguns polvos eram devolvidos, enquanto outros eram comidos ou enviados a aquários.
  • Em 1963, exemplares foram colocados previamente na área para garantir ação à televisão.

Por que milhares de pessoas assistiam?

O fundo do mar ainda parecia um território recém-aberto ao público. Documentários, máscaras, nadadeiras e cilindros criavam fascínio por exploração. O polvo era retratado com frequência como criatura estranha, perigosa ou troféu. Assistir aos mergulhadores trazia esse mundo invisível para a praia. Patrocínio, prêmios e cobertura convertiam um encontro com a vida marinha em evento esportivo familiar.

A edição de 1963 foi preparada para chamar atenção nacional, e a presença de animais colocados antecipadamente na área expõe a lógica do espetáculo. A natureza precisava entregar ação no horário da transmissão. O público via aventura espontânea, enquanto organização, regras e encenação garantiam imagens, exemplares na balança e uma narrativa fácil de vender.

Para conhecer imagens e a reconstrução histórica dos campeonatos, veja o vídeo publicado pelo documentarista Dylan Dubeau no YouTube:

O que mudou na imagem do polvo?

Pesquisas passaram a documentar aprendizagem, memória, solução de problemas, uso de abrigos e comportamento exploratório em polvos. A compreensão de que são animais cognitivamente complexos alterou a reação pública a práticas de captura recreativa. Mudanças legais e regulamentares também limitaram caça e maus-tratos. O campeonato perdeu espaço durante os anos 1960 e se tornou lembrança de outra cultura de mergulho.

É importante não projetar ideias humanas de forma simples. Inteligência não torna um animal “como uma pessoa”, nem é o único motivo para protegê-lo. Impacto populacional, sofrimento, função ecológica e sustentabilidade também contam. O polvo gigante é predador e presa em ecossistemas costeiros. Fêmeas guardam milhares de ovos e deixam de se alimentar durante o cuidado. Retirar adultos grandes de tocas pode alterar reprodução e relações locais, mesmo quando a população ampla não parece ameaçada.

Por que lembrar esse esporte agora?

A luta com polvos mostra como entretenimento normal pode se tornar estranho em poucas décadas. Em 1963, televisão, multidão e troféus davam legitimidade ao evento. Hoje, a mesma cena seria recebida com perguntas sobre bem-estar e conservação marinha. Essa mudança não aconteceu apenas porque o público ficou mais sensível, mas porque acumulou conhecimento sobre cefalópodes e passou a reconhecer limites no uso recreativo da fauna.

O campeonato continua fascinante não por ser prova de coragem contra um monstro, mas por registrar uma relação histórica. Mergulhadores acreditavam explorar um mundo quase sem regras; os polvos eram convertidos em peso na balança. Ao rever a cena, o absurdo muda de lugar. O animal não era um adversário esportivo que aceitou competir. Era o habitante de uma toca arrancado para a praia, diante de uma plateia que ainda aprendia a enxergar o oceano de outra forma.