O governo reuniu voluntários para comer borax, formaldeído e outros conservantes numa experiência conhecida como “Esquadrão do Veneno”
Em 1902, voluntários do “Esquadrão do Veneno” comeram alimentos com conservantes para que seus efeitos no corpo fossem investigados.
O almoço vinha acompanhado de uma condição incomum: depois de comer, o participante precisava se submeter a exames e registrar o que acontecia com o próprio corpo. Em 1902, o químico Harvey Wiley reuniu voluntários para investigar conservantes usados nos alimentos. A imprensa encontrou um apelido impossível de esquecer para o grupo: Esquadrão do Veneno.

Por que o governo decidiu fazer uma experiência dessas?
Os alimentos industrializados circulavam com adulterações e aditivos cuja presença nem sempre era informada ao consumidor. Wiley, ligado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, queria reunir dados sobre o efeito dessas substâncias. O Congresso destinou cinco mil dólares à pesquisa iniciada em 1902.
O problema não era apenas descobrir se uma refeição estragada fazia mal. Produtos podiam parecer frescos justamente porque recebiam substâncias que alteravam sua conservação ou aparência. Sem informação confiável sobre o conteúdo, o consumidor tinha dificuldade para distinguir o que estava levando para a mesa.

O que havia nos pratos?
O programa investigou conservantes como bórax, benzoatos e formaldeído ao longo de diferentes etapas. No início, o bórax foi incorporado a alimentos servidos aos voluntários. A proposta era controlar a exposição e acompanhar seus efeitos, em vez de deixar cada participante comer qualquer coisa e tentar reconstruir tudo depois.
Isso exigia uma atenção anterior ao próprio experimento: obter alimentos que não viessem já adulterados. A equipe precisava conhecer a composição da base alimentar para interpretar melhor o efeito do ingrediente estudado. O refeitório funcionava como parte de um laboratório, com refeições e registros organizados em conjunto.
Por que alguém aceitou participar?
O grupo inicial reunia doze homens jovens. Refeições gratuitas, uma pequena remuneração e o interesse em participar de uma investigação ajudaram a atrair candidatos. O documentário American Experience, da PBS, descreve o recrutamento entre jovens que também viam ali uma oportunidade de economizar e contribuir para a pesquisa.
A contrapartida incluía comer apenas o que era autorizado, aceitar exames e seguir uma rotina rígida de acompanhamento. A imagem pública de aventureiros de estômago forte escondia restrições bem concretas. Quando os jornais passaram a contar a história, o apelido transformou a experiência em um assunto nacional.
As refeições controladas nasceram de um problema que já estava nas mesas de muitas famílias. Conheça o início dessa investigação no vídeo do canal do YouTube American Experience | PBS:
Como os voluntários eram acompanhados?
Pesagem, avaliações médicas e análise de amostras de urina e fezes faziam parte dos registros. Wiley queria relacionar o que entrava no organismo ao que acontecia depois. Os sintomas observados durante etapas com bórax incluíram mal-estar, náuseas e vômitos, e alguns participantes não completaram os testes.
A experiência refletia uma fase inicial desses métodos de investigação em pessoas e envolvia riscos importantes. Seu impacto histórico não depende de tratá-la como um modelo a ser repetido. O acompanhamento buscava organizar três conjuntos de informações:
- O que cada voluntário consumia e em qual etapa.
- Mudanças físicas e sintomas durante a exposição.
- Resultados de exames e de amostras biológicas.
Como o experimento ajudou a mudar os alimentos?
A repercussão deu força ao debate sobre proteção do consumidor e se somou a outras campanhas e denúncias. Em 1906, foi aprovada a Pure Food and Drugs Act, marco federal contra alimentos e medicamentos adulterados ou identificados de maneira enganosa. O Esquadrão do Veneno contribuiu para a pressão pública, sem ter sido a única causa da mudança.
Essa história faz parte do passado científico e político de Washington, onde museus preservam a memória americana. A pergunta de Wiley atravessou o refeitório e chegou às prateleiras: como confiar no que se compra quando ninguém precisa explicar direito o que colocou ali? O escândalo tornou essa dúvida difícil de ignorar.