O mamífero que usa cheiro para reconhecer outros indivíduos consegue identificar informações que os humanos jamais perceberiam apenas olhando
Pesquisas revelam que marcas de cheiro das hienas podem transmitir informações sobre clãs, sexo e reprodução com participação de bactérias.
Uma hiena-malhada fareja um tufo de capim marcado por outra integrante do clã. A secreção pode informar mais que uma simples passagem. Pesquisas com glândulas e moléculas associam esses sinais à identidade do grupo, ao sexo e ao estado reprodutivo. Há ainda uma participação inesperada: bactérias presentes nas secreções parecem contribuir para a mistura química. O odor revela uma comunicação social invisível.

Como uma hiena deixa uma marca para as outras?
Ela pode depositar uma pasta produzida por glândulas próximas ao ânus sobre talos de vegetação. A secreção permanece no ambiente depois que o animal sai, oferecendo a visitantes um sinal químico que não exige encontro direto. O odor combina substâncias, e sua interpretação depende do contexto.
A hiena-malhada, Crocuta crocuta, vive em clãs com relações sociais complexas. O faro acrescenta uma camada que as manchas não revelam. A comunicação por marcas de cheiro também ocorre em outros mamíferos, embora cada espécie use substâncias, comportamentos e informações diferentes. Cada espécie usa sinais diferentes.

O cheiro informa a que grupo pertence o animal?
Estudos encontraram semelhanças nas comunidades bacterianas das secreções de hienas do mesmo clã e diferenças em relação a outros clãs. Isso é compatível com a hipótese de que o odor carregue informação sobre a pertença social. Pesquisadores identificaram bactérias por métodos genéticos.
Isso não prova identificação perfeita: a mistura química envelhece e outros sinais influenciam a reação. A pesquisa, porém, aponta componentes mensuráveis que podem ajudar a distinguir grupos. As principais camadas investigadas são:
- A composição de bactérias presentes na pasta glandular.
- O perfil de moléculas voláteis que chegam ao olfato.
- As diferenças associadas a clã, sexo e estado reprodutivo.
O que as bactérias têm a ver com a mensagem?
Bactérias fermentativas podem transformar substâncias da secreção e produzir compostos com cheiro. A chamada hipótese da fermentação propõe que mudanças nas comunidades microbianas contribuam para variações do sinal olfativo. Um estudo de 2013 comparou perfis bacterianos e ácidos graxos voláteis em hienas-malhadas e listradas e encontrou variações que acompanharam espécie, sexo e condição reprodutiva. A associação fortalece a hipótese, embora não transforme micróbios em autores conscientes de mensagens.
A composição química da marca pode refletir o sexo e a condição reprodutiva do animal, além da pertença ao clã. Ainda faltam experimentos que isolem os compostos para observar a reação de outras hienas; correlação entre amostras e grupos não equivale à interpretação demonstrada por cada receptor.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Minuto da Terra, que fala sobre a organização social das hienas-malhadas e a posição dos machos nos clãs:
Que informações não aparecem apenas olhando as manchas?
Uma fotografia pode mostrar porte, pelagem e comportamento momentâneo, mas não expõe a composição das secreções deixadas antes da chegada do observador. Análises químicas encontraram diferenças relacionadas ao sexo e ao estado reprodutivo entre indivíduos de um grupo. A marca também pode indicar que outras hienas passaram por ali. As comparações não traduzem todas as percepções da espécie.
Os sinais olfativos podem continuar disponíveis quando não há contato visual, o que amplia sua utilidade num território percorrido por vários animais. Ao mesmo tempo, sons, postura e encontros diretos compõem outras partes da comunicação. Reduzir a vida social das hienas a um único sentido seria tão incompleto quanto ignorar o cheiro por não conseguirmos interpretá-lo naturalmente.
O odor é igual para sempre?
Não. A comunidade microbiana, a secreção e a situação biológica do animal podem mudar. Uma marca também envelhece no ambiente, enquanto novas marcas são depositadas. Isso limita a ideia de uma assinatura fixa e imutável. Pesquisadores precisam controlar idade da amostra, origem dos indivíduos e método de coleta para comparar sinais de maneira útil.
O trabalho com hienas é especialmente interessante porque aproxima ecologia social, química e microbiologia. A semelhança entre membros de um clã pode surgir de interações e ambientes compartilhados, além de características individuais. Ainda há perguntas sobre como cada receptor discrimina esses odores e quais componentes provocam comportamentos específicos. Correlação química não encerra a investigação.
O que essa linguagem invisível revela?
Ela revela que o território de uma hiena pode guardar informações sociais deixadas por animais ausentes. A secreção não é apenas um cheiro forte para os humanos: contém moléculas cujos perfis variam de maneiras relevantes nos estudos. Bactérias parecem participar da produção dessas diferenças, mostrando que a comunicação de um mamífero pode depender também de microrganismos associados a seu corpo.
Ao ver uma hiena farejar o capim, o observador enxerga só uma pequena parte da cena. A pesquisa identifica relações entre odores, clãs e características biológicas sem prometer uma tradução palavra por palavra. O mais intrigante é justamente essa diferença de perspectiva: o que parece vazio para nossos olhos pode funcionar como registro de presença e identidade para outro animal.