O Mar de Plástico que alimenta a Europa: 40.000 hectares de estufas que transformaram o deserto em uma potência agrícola
Almería é uma das áreas mais áridas da Europa.
Vista de cima, uma parte da província de Almería, no sul da Espanha, parece coberta por uma enorme camada branca. Não é neve. São milhares de estufas revestidas de plástico que formam o chamado Mar de Plástico, uma das maiores concentrações de cultivo protegido do planeta. A área chega a cerca de 40.000 hectares quando se considera o conjunto agrícola da região e produz aproximadamente 3,5 milhões de toneladas de hortaliças por ano, grande parte destinada ao restante da Europa.

Como uma região tão seca virou uma potência agrícola?
Almería é uma das áreas mais áridas da Europa. Em meados do século XX, agricultores locais começaram a experimentar estruturas simples cobertas com plástico para proteger as plantações do vento, conservar umidade e criar um microclima mais favorável. O modelo se expandiu rapidamente a partir das décadas seguintes.
Dentro das estufas, temperatura, umidade, irrigação e proteção contra o vento podem ser controladas com muito mais precisão do que em campo aberto. Isso permitiu ampliar a produção de tomates, pimentões, pepinos, abobrinhas, berinjelas e melões inclusive durante o inverno europeu.
Por que as estufas parecem um mar branco visto do espaço?
A concentração é tão grande que as coberturas formam uma mancha contínua na paisagem. Em áreas como Campo de Dalías e El Ejido, quilômetros de estruturas praticamente se encostam umas nas outras.
As coberturas claras refletem parte da radiação solar, aumentando o chamado albedo da superfície. Estudos citados sobre a região observaram inclusive um efeito local de resfriamento associado à enorme quantidade de luz refletida pelas estufas.
Por baixo dessa cobertura são produzidos alimentos que chegam a supermercados de vários países europeus durante períodos em que o frio dificulta o cultivo local.
De onde vem tanta água em uma região quase desértica?
Esse é um dos maiores desafios do sistema. A agricultura intensiva de Almería utiliza irrigação por gotejamento para colocar pequenas quantidades de água diretamente próximas às raízes, diminuindo perdas em comparação com técnicas menos controladas.
A produção também depende de diferentes fontes, incluindo aquíferos subterrâneos, aproveitamento de água e dessalinização. A usina de Campo de Dalías, em operação desde 2015, consegue processar mais de 120.000 metros cúbicos de água do mar por dia.
- irrigação por gotejamento reduz desperdícios;
- estufas diminuem parte da evaporação causada pelo vento;
- algumas estruturas captam água da chuva;
- água subterrânea ainda é utilizada em diferentes áreas;
- a dessalinização ganhou importância para complementar o abastecimento.

A concentração é tão grande que as coberturas formam uma mancha contínua na paisagem.Imagem gerada por inteligência artificial
O modelo também criou problemas ambientais e sociais
O sucesso produtivo não veio sem custos. A pressão sobre aquíferos subterrâneos é uma preocupação antiga. A FAO já registrou problemas relacionados à superexploração, salinização e contaminação por nitratos em zonas de horticultura intensiva do sudeste espanhol.
O plástico também precisa ser substituído periodicamente. Grande parte é encaminhada para reciclagem, mas resíduos descartados de maneira irregular continuam aparecendo em alguns pontos da região. Outro problema importante está nas condições de parte da mão de obra migrante. Reportagens recentes documentam trabalhadores vivendo em assentamentos precários e enfrentando baixos salários e irregularidade laboral.
Como o Mar de Plástico passou a alimentar boa parte da Europa?
A escala atual nasceu da combinação entre clima ensolarado, estufas relativamente simples, irrigação eficiente, logística de exportação e décadas de inovação agrícola. Ao redor das plantações surgiu uma cadeia inteira de cooperativas, laboratórios, empresas de embalagens, centros de pesquisa e distribuidores capazes de levar produtos frescos rapidamente para outros países.
O que era uma região árida e economicamente pobre acabou transformado em uma gigantesca fábrica agrícola a céu aberto, coberta por plástico. O Mar de Plástico mostra até onde a tecnologia pode ampliar a produção em um ambiente difícil, mas também deixa claro que produzir milhões de toneladas em uma área seca exige administrar com cuidado água, resíduos e condições de trabalho para que o sucesso econômico não ultrapasse os limites ambientais e sociais da própria região.