O México reintroduziu 47 bisontes em 2025, depois de mais de 100 anos: apenas alguns meses depois, o ecossistema está se recuperando por conta própria
O bisão já ocupou extensas áreas do norte mexicano e do restante da América do Norte.
Em 2025, o bisão-americano voltou a uma região de Coahuila, no norte do México, da qual havia desaparecido havia mais de um século. Três animais chegaram primeiro e outros 44 foram posteriormente levados para a reserva El Santuario, em Cuatro Ciénegas. Poucos meses depois, o monitoramento começou a registrar germinação de pastagens, maior atividade de insetos e o aparecimento de pumas, linces e pecaris. São sinais iniciais de restauração de um ambiente onde esse grande herbívoro voltou a desempenhar funções perdidas.

Por que os bisões desapareceram dessa região do México?
O bisão já ocupou extensas áreas do norte mexicano e do restante da América do Norte. Em Coahuila, a caça e as transformações provocadas pela ocupação humana reduziram drasticamente suas populações até que a espécie desapareceu localmente. Registros históricos indicam uma ausência de aproximadamente 160 anos na região de Cuatro Ciénegas.
A reintrodução ocorreu na reserva El Santuario, uma área protegida de quase 4 mil hectares na Sierra de Menchaca. A operação de 2025 foi realizada em etapas para formar uma nova manada capaz de permanecer no território.
- Três exemplares foram introduzidos inicialmente em 2025;
- Outros 44 chegaram no fim de novembro do mesmo ano;
- Entre eles estavam 38 fêmeas e seis machos no grupo maior;
- Parte dos animais veio da Reserva da Biosfera de Janos;
- O objetivo é recuperar processos ecológicos que desapareceram junto com o bisão.
Como um animal tão grande consegue modificar o ambiente apenas pastando?
Os bisões são considerados engenheiros do ecossistema porque seu impacto vai muito além de consumir capim. Enquanto caminham, suas patas revolvem pontos do terreno; ao pastar, retiram vegetação seca e modificam a altura das gramíneas; e o esterco devolve nutrientes ao solo. O pelo também pode transportar sementes e fornecer material utilizado por algumas aves na construção de ninhos.
O que começou a acontecer poucos meses depois da reintrodução?
O monitoramento da reserva registrou mudanças rapidamente. Segundo os responsáveis pelo projeto, áreas de pastagem começaram a apresentar nova germinação, enquanto o esterco passou a atrair besouros rola-bosta. Esses insetos enterram matéria orgânica, movimentam nutrientes e ajudam a criar pequenos canais no terreno.
Outro resultado chamou ainda mais atenção. Câmeras instaladas na reserva voltaram a registrar animais que não apareciam naquele espaço durante os anos anteriores de monitoramento, incluindo pumas, linces-vermelhos e pecaris-de-colar. Os responsáveis também relataram aves recolhendo pelos dos bisões.
- Pastagens começaram a apresentar sinais de regeneração;
- Besouros passaram a utilizar o esterco deixado pela manada;
- O revolvimento do terreno pode favorecer infiltração de água;
- Câmeras registraram novamente grandes e médios mamíferos;
- Oito filhotes já haviam nascido na reserva em 2026.

Os bisões são considerados engenheiros do ecossistema porque seu impacto vai muito além de consumir capim.Imagem gerada por inteligência artificial
Por que a volta de pumas e linces não significa que tudo já foi restaurado?
O aparecimento desses animais é um sinal interessante, mas ainda é cedo para afirmar que os bisões sozinhos reconstruíram todo o ecossistema de Cuatro Ciénegas. Predadores e pecaris possuem áreas de vida extensas e podem circular pelo território por vários motivos. Para demonstrar uma recuperação ecológica duradoura, será necessário acompanhar durante anos vegetação, solo, água, insetos, herbívoros e predadores.
- O projeto ainda tem menos de um ano completo de monitoramento após a grande reintrodução;
- Animais registrados por câmeras podem apenas estar atravessando a reserva;
- Mudanças na vegetação precisam ser comparadas ao longo de várias estações;
- Secas, chuvas e incêndios também influenciam a resposta do ambiente;
- A recuperação completa de um ecossistema pode levar muitos anos.
O objetivo é fazer o próprio ecossistema voltar a trabalhar
A importância da reintrodução está justamente em recuperar processos que não podem ser reproduzidos apenas plantando árvores ou espalhando sementes. Um bisão-americano pasta, pisa, escava, transporta material, fertiliza o terreno e altera continuamente a paisagem. Quando dezenas deles repetem esses comportamentos todos os dias, criam condições que afetam desde microrganismos do solo até insetos, aves e grandes mamíferos.
Os resultados observados em El Santuario ainda representam o início dessa experiência, mas a manada já passou de 47 adultos para incluir novos filhotes e começou a modificar um território que ficou mais de um século sem a espécie. O aspecto mais promissor não é imaginar que a natureza tenha se recuperado completamente em poucos meses, mas perceber que, ao devolver um dos animais que ajudavam a construir aquele ambiente, processos naturais que estavam ausentes começaram novamente a aparecer.