O vombate é o único animal que faz cocô em formato de cubo e cientistas descobriram como
Diferenças de rigidez no intestino do vombate moldam suas fezes em cubos antes que elas cheguem à saída do corpo.
Não existe um “molde quadrado” escondido no fim do corpo do vombate. Mesmo assim, esse marsupial australiano produz fezes com faces planas e cantos definidos. A explicação veio de dissecações, medições de elasticidade e modelos matemáticos que mostraram como diferentes regiões do intestino apertam o conteúdo em ritmos diferentes.

Como os cientistas investigaram um cocô tão estranho?
A equipe liderada por Patricia Yang estudou intestinos de vombates que haviam morrido após acidentes e comparou a elasticidade de diferentes regiões do tecido. Em vez de encontrar um reto quadrado, os pesquisadores observaram que o intestino apresenta setores com rigidez e espessura diferentes, especialmente na porção final.
O trabalho publicado em Soft Matter combinou essas medições com modelos físicos e matemáticos. A pergunta deixou de ser “qual órgão tem formato de cubo?” e passou a ser “como contrações desiguais conseguem transformar uma massa inicialmente mais arredondada durante o trajeto digestivo?”

Em que parte do intestino os cantos aparecem?
Segundo o estudo, a forma cúbica surge principalmente nos últimos 17% do intestino. Nessa região, trechos mais rígidos e mais flexíveis alternam a forma como o conteúdo é comprimido. Os setores rígidos contraem e deslocam o material de maneira diferente dos setores macios, criando faces e cantos progressivamente.
Os pesquisadores mediram diferenças marcantes: algumas regiões tinham cerca do dobro da espessura e aproximadamente quatro vezes a rigidez de outras. O modelo reproduziu formas mais quadradas quando essa diferença de rigidez aumentava, reforçando a ideia de que o segredo está na mecânica do tecido, não numa abertura corporal quadrada.
O intestino realmente funciona como uma pequena máquina de moldar cubos?
De certa forma, sim, mas o processo é lento e biológico. Conforme água é retirada e as fezes ficam mais secas, as contrações não uniformes moldam o material ao longo do caminho. O vombate não “esculpe” cada peça conscientemente, e os cantos aparecem antes de a matéria chegar à saída.
O mecanismo pode ser resumido assim:
- O formato aparece principalmente na porção final do intestino, e não na saída do corpo.
- Regiões do tecido apresentam espessura e rigidez diferentes.
- Contrações mais fortes e mais suaves atuam sobre a massa enquanto ela perde água.
- Modelos físicos reproduziram cantos mais definidos quando aumentava o contraste de rigidez.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube ANIMAL TV que apresenta o vombate e explica a curiosidade de suas fezes em formato de cubo:
Para que serviria o formato cúbico na natureza?
Vombates depositam fezes em locais visíveis, como pedras, troncos e pontos elevados, e o cheiro participa da comunicação territorial. Cubos têm menor tendência a rolar do que formas arredondadas, por isso é comum a hipótese de que o formato ajude a manter as marcações no lugar.
Essa função, porém, é menos demonstrada do que o mecanismo intestinal. O estudo explica com boa evidência como os cantos surgem, mas não prova de maneira definitiva que a seleção natural tenha favorecido fezes cúbicas especificamente para impedir que rolem. A utilidade territorial continua sendo uma explicação plausível, não uma certeza fechada.
Por que esse cocô interessa além da curiosidade?
Entender como um tubo flexível produz formas com cantos sem usar moldes rígidos pode inspirar perguntas em engenharia e fabricação. Os autores destacam que diferenças controladas de elasticidade conseguem gerar geometrias complexas, algo surpreendente para um processo que acontece dentro de um animal.
O cocô cúbico do vombate parece uma piada da natureza, mas virou problema de física experimental. O que parecia depender de um órgão quadrado nasce, na verdade, de um intestino com elasticidade desigual.