Obra de parque industrial revela acampamento romano com esqueletos, armas e armaduras de 1.850 anos

Um parque industrial prestes a sair do papel revelou uma cena congelada há quase 1.850 anos.

Um parque industrial prestes a sair do papel revelou uma cena congelada há quase 1.850 anos. Perto de Šurany, no sudoeste da Eslováquia, arqueólogos encontraram um raro acampamento militar romano com esqueletos depositados em poços, fossas e valas, ainda acompanhados por armas, armaduras, moedas e objetos pessoais.

O sítio apareceu durante as pesquisas preventivas realizadas na área destinada ao futuro Parque Industrial de Šurany.
O sítio apareceu durante as pesquisas preventivas realizadas na área destinada ao futuro Parque Industrial de Šurany. - Imagem gerada por IA

Como o acampamento romano foi descoberto?

O sítio apareceu durante as pesquisas preventivas realizadas na área destinada ao futuro Parque Industrial de Šurany. Desde março de 2025, especialistas do Instituto de Arqueologia da Academia Eslovaca de Ciências investigam o terreno com financiamento da empresa estatal MH Invest, responsável pelo empreendimento.

Segundo comunicado da Academia Eslovaca de Ciências, mais de 150 hectares já foram examinados. O acampamento ocupa cerca de 7,4 hectares e pertence provavelmente à segunda metade do século II, durante as Guerras Marcomanas, travadas entre Roma e povos germânicos aproximadamente de 166 a 180 d.C.

Ossos achados em poços indicam sepultamentos de crise sem rituais.
Ossos achados em poços indicam sepultamentos de crise sem rituais. - M. Ruttkay, M. Vojteček, M. Cheben, MH Invest

O que havia dentro da instalação militar?

Embora não siga o formato retangular mais comum nos acampamentos romanos, a estrutura possui elementos defensivos característicos. Os pesquisadores identificaram fortificações, cinco portões e uma clavícula, entrada protegida por uma curva de fosso e muralha que obrigava os invasores a avançar por uma passagem vulnerável.

Entre os materiais recuperados pelos arqueólogos estão objetos militares e itens usados na rotina dos legionários:

  • Lan­ças e pontas de flechas;
  • Fragmentos de capacetes e armaduras;
  • Fivelas, broches legionários e moedas;
  • Machado, faca e dado de jogo;
  • Pregos de ferro de sandálias militares romanas.

Por que os sepultamentos causaram surpresa?

Esqueletos completos e ossos separados apareceram em fossos defensivos, sepulturas rasas, silos de armazenamento e possíveis poços. A localização incomum indica que vários mortos não receberam os ritos funerários normalmente esperados, levantando a hipótese de enterros improvisados durante uma situação de crise.

Marek Vojteček, arqueólogo responsável pela escavação, afirmou que as evidências preliminares apontam para soldados romanos. Já Michal Cheben questiona se eles morreram em batalha ou durante uma doença e por que equipamentos valiosos permaneceram junto aos corpos, em vez de serem recolhidos pelos sobreviventes.

Ossos achados em poços indicam sepultamentos de crise sem rituais.
Ossos achados em poços indicam sepultamentos de crise sem rituais. - M. Ruttkay, M. Vojteček, M. Cheben, MH Invest

As sandálias podem revelar detalhes dos soldados?

Blocos compactos de terra foram examinados por raios X antes da retirada dos objetos mais frágeis. As imagens revelaram fileiras preservadas de pregos pertencentes às caligae, as sandálias usadas pelas tropas romanas. A conservação é tão detalhada que os especialistas esperam calcular o tamanho dos calçados de alguns militares.

Para Cheben, observar o calçado original de um legionário e determinar suas dimensões é praticamente um milagre arqueológico. Além de aproximar o público da vida cotidiana no exército, os vestígios podem indicar características físicas, padrões de fabricação e possíveis diferenças entre as unidades presentes no acampamento.

O local pode estar ligado a Marco Aurélio?

O acampamento pertence ao contexto das campanhas conduzidas durante o reinado de Marco Aurélio, mas ainda não há confirmação de que o imperador tenha permanecido em Šurany. A possível ligação com o trecho das Meditações escrito “junto ao Granua” é associada pelos pesquisadores a outro acampamento localizado na região do rio Hron.

Análises de DNA antigo, isótopos, sedimentos e datação por radiocarbono poderão revelar a origem dos mortos e as causas do abandono. As respostas levarão anos, mas a descoberta já exige atenção: sob uma obra moderna surgiu um retrato raro de soldados que partiram às pressas e deixaram para trás seus mortos, seus equipamentos e um mistério ainda aberto.