Os especialistas recomendam não misturar vários produtos de limpeza perfumados na mesma faxina: o cheiro de limpinho forma partículas invisíveis que chegam fundo nos pulmões
O cheiro de limpeza pode esconder poluentes invisíveis. Entenda como fragrâncias de desinfetantes e limpadores reagem com o ozônio dentro de casa
Combinar desinfetante com cheiro de pinho, limpador cítrico e outros produtos perfumados pode deixar a casa com aquele aroma associado à limpeza, mas também contribuir para a formação de poluentes invisíveis no ar. Uma pesquisa liderada pela Universidade Purdue, nos Estados Unidos, divulgada pela American Chemical Society (ACS) em agosto de 2026, mostrou que compostos presentes nessas fragrâncias podem reagir com o ozônio do ambiente e gerar bilhões ou trilhões de nanopartículas. O alerta não é para abandonar a faxina, mas para repensar a quantidade de produtos perfumados usados e a ventilação durante a limpeza.

Como os produtos perfumados formam partículas invisíveis durante a faxina?
Alguns produtos de limpeza liberam compostos voláteis chamados terpenos, encontrados em fragrâncias com aromas de limão, pinho, lavanda e outras plantas. Entre eles estão o limoneno, o pineno e o linalol. Quando esses compostos entram em contato com o ozônio presente no ar, podem ocorrer reações químicas que formam novos poluentes, incluindo partículas ultrafinas. Esse processo pode começar em poucos minutos, enquanto a pessoa esfrega o piso, borrifa uma bancada ou passa um pano em superfícies perfumadas.
Em experimentos realizados em um modelo de residência instalado na Universidade Purdue, os pesquisadores observaram que atividades comuns de limpeza produziram grandes quantidades dessas partículas, com resultados que variaram conforme o produto utilizado. Muitas tinham entre 1 e 30 nanômetros, dimensões tão pequenas que passam despercebidas e podem não ser detectadas por monitores domésticos comuns de qualidade do ar. O estudo não indica que toda faxina provoque a mesma emissão, mas demonstra que o uso de produtos perfumados pode alterar a composição do ar dentro de casa.
Por que essas nanopartículas preocupam os pesquisadores?
O tamanho reduzido das partículas é uma das principais razões para a preocupação. Partículas ultrafinas podem penetrar profundamente no sistema respiratório e se depositar em diferentes regiões das vias aéreas. A exposição a esse tipo de poluente está associada a preocupações com irritação e inflamação respiratória, mas o estudo divulgado pela ACS avaliou principalmente a formação das partículas e a exposição potencial. Ele não acompanhou pessoas durante a faxina para determinar se os produtos testados causaram doenças ou danos clínicos específicos.
Os pesquisadores compararam a dose de partículas que poderia ser inalada durante determinadas atividades de limpeza com a exposição a partículas relacionadas à poluição do trânsito. Em algumas condições experimentais, a exposição estimada foi comparável ou superior àquela associada a ficar perto de uma via movimentada. Isso não significa que limpar a casa seja equivalente, em todos os aspectos, a respirar fumaça de veículos: a composição das partículas é diferente, e os resultados dependem das condições do ambiente e do produto usado. A descoberta reforça a importância de considerar também a qualidade do ar, não apenas a aparência das superfícies.

Quais cuidados ajudam a reduzir a exposição durante a limpeza?
Não é necessário deixar de limpar a casa para reduzir a formação desses poluentes. A equipe de Purdue recomenda diminuir o uso de fragrâncias e melhorar a circulação do ar, especialmente em cômodos pequenos ou com pouca ventilação. Algumas medidas práticas incluem:
- Evitar sobrepor produtos perfumados: não use vários limpadores aromáticos na mesma faxina sem necessidade.
- Preferir fórmulas sem fragrância: produtos sem perfume ou com fragrância reduzida podem diminuir a emissão desses compostos.
- Abrir as janelas quando possível: a ventilação ajuda a renovar o ar durante e depois da limpeza.
- Ligar o exaustor: quando houver um sistema de exaustão adequado, use-o para ajudar a remover o ar do ambiente.
- Evitar aparelhos que geram ozônio: não combine a limpeza com produtos perfumados e dispositivos geradores de ozônio.
Também vale lembrar que fragrâncias de origem botânica ou óleos essenciais não estão automaticamente livres desse efeito. Na pesquisa, tanto produtos convencionais quanto produtos com ingredientes botânicos contribuíram para a formação de partículas. Para quem costuma usar aromatizadores para manter a casa cheirosa, a mesma lógica de reduzir a concentração de fragrâncias e ventilar o espaço pode ser útil, como explica este conteúdo sobre alternativas para perfumar a casa.
É preciso parar de usar desinfetantes e limpadores perfumados?
Os resultados não significam que todos os produtos de limpeza sejam perigosos ou que a higiene doméstica deva ser abandonada. A limpeza remove sujeira e pode ajudar a controlar microrganismos nas superfícies, mas o uso de fragrâncias acrescenta compostos que reagem com a química do ar. A melhor escolha depende da finalidade do produto: para muitas tarefas cotidianas, uma fórmula sem perfume pode ser suficiente, enquanto a desinfecção deve ser feita quando necessária e de acordo com as instruções do rótulo.
Durante a faxina, nunca misture produtos químicos entre si, especialmente água sanitária com ácidos, vinagre ou produtos à base de amônia, pois isso pode liberar gases perigosos. Essa é uma precaução distinta da formação de nanopartículas estudada pela equipe de Purdue, mas igualmente importante. Para entender por que o cheiro intenso nem sempre é sinal de um ambiente mais saudável, veja também as orientações sobre como limpar a casa sem agravar a rinite. O estudo de Purdue, divulgado pela American Chemical Society, amplia o debate sobre a qualidade do ar interno e mostra que ventilar o ambiente e moderar o uso de fragrâncias são medidas simples para reduzir a exposição potencial.