Os Estados Unidos gastaram bilhões nesta pirâmide militar e decidiram abandoná la praticamente no dia seguinte
No meio das planícies de Dakota do Norte, uma enorme pirâmide de concreto parece cenário de ficção científica.
No meio das planícies de Dakota do Norte, uma enorme pirâmide de concreto parece cenário de ficção científica. Ela faz parte do Complexo de Salvaguarda Stanley R. Mickelsen, um projeto de defesa antimíssil que custou bilhões de dólares, levou anos para ser construído e entrou oficialmente em operação em 1975. O detalhe mais surpreendente é que, no dia seguinte à inauguração, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos votou pelo seu fechamento.

Por que os Estados Unidos construíram uma pirâmide militar?
O complexo foi aprovado pelo Congresso em 1969 e construído entre 1970 e 1974, perto de Nekoma, em Dakota do Norte. Sua missão era proteger os campos de mísseis nucleares Minuteman ligados à Base Aérea de Grand Forks contra um possível ataque de mísseis balísticos soviéticos durante a Guerra Fria.
O formato da estrutura não tinha finalidade estética. A pirâmide abrigava o Radar de Localização de Mísseis, conhecido como MSR, responsável por acompanhar ameaças e auxiliar os interceptadores. Suas paredes reforçadas foram projetadas para suportar condições extremas e manter parte do sistema funcionando mesmo durante um confronto nuclear.

O que havia dentro do complexo de US$ 5,7 bilhões?
Além do MSR instalado na pirâmide, o sistema utilizava o Radar de Aquisição Perimetral, o PAR, para detectar ameaças se aproximando pelo norte. A defesa incluía 30 interceptadores Spartan, voltados para alvos de maior alcance, e 16 mísseis Sprint, extremamente rápidos e destinados a interceptações mais próximas.
Dados do Center for Land Use Interpretation ajudam a mostrar a escala da obra. Segundo a instituição, a construção empregou milhares de trabalhadores e consumiu enormes quantidades de concreto, aço e fiação, transformando uma região rural em uma das instalações militares mais incomuns já construídas nos Estados Unidos.
- Cerca de 714 mil pés cúbicos de concreto foram usados durante a construção do complexo.
- A obra consumiu aproximadamente 27,5 mil toneladas de aço para reforço estrutural.
- Mais de 3.540 quilômetros de fiação foram instalados nos diferentes sistemas da base.
- Mais de 3.200 trabalhadores participaram da construção da instalação militar.
Por que o projeto perdeu a função tão rapidamente?
O complexo foi oficialmente inaugurado em 1º de outubro de 1975. Em 2 de outubro, porém, a Câmara dos Representantes votou pelo encerramento do sistema. A mudança estava ligada ao novo cenário estratégico criado pelas negociações SALT entre Estados Unidos e União Soviética, que limitaram os sistemas de defesa contra mísseis antibalísticos.
O programa Safeguard havia sido pensado para incluir outras instalações pelo país, mas a unidade de Dakota do Norte acabou sendo a única concluída. Reportagens históricas do Grand Forks Herald destacam justamente esse contraste: uma infraestrutura monumental foi finalizada quando a política nuclear americana já seguia em outra direção.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube FORGOTTEN HISTORY falando sobre a pirâmide nuclear secreta dos Estados Unidos.
A pirâmide realmente funcionou só por um dia?
A expressão é verdadeira apenas em parte. A instalação foi declarada operacional em 1º de outubro e teve sua desativação aprovada politicamente no dia seguinte, o que explica a fama de ter funcionado por apenas um dia. Na prática, porém, o desligamento não aconteceu imediatamente e algumas operações continuaram de maneira limitada.
O complexo permaneceu ativo até 1976, quando seu encerramento foi concluído. Equipamentos militares e sistemas sensíveis foram posteriormente retirados, enquanto partes da instalação passaram por desmontagem e processos de limpeza ambiental. A pirâmide, entretanto, continuou de pé, tornando-se uma espécie de monumento involuntário às mudanças rápidas da Guerra Fria.
O que pode acontecer com a pirâmide daqui para frente?
Depois de décadas praticamente abandonada, parte da propriedade foi adquirida em 2017 pela Cavalier County Job Development Authority. Mais tarde surgiram propostas para reaproveitar a antiga instalação militar como um centro de dados de alto desempenho, dando à estrutura uma função tecnológica completamente diferente daquela imaginada nos anos 1970.
Entre as ideias apresentadas está o aproveitamento do calor produzido por servidores para alimentar uma estufa. A possível transformação resume bem a história do lugar: uma fortaleza construída para enfrentar a ameaça nuclear pode acabar servindo à infraestrutura digital. Vale acompanhar seu futuro, porque poucas construções mostram de forma tão concreta como prioridades tecnológicas podem mudar em apenas uma geração.