Os filhotes deste anfíbio arrancam pedaços da pele da própria mãe para comer e algumas espécies ainda produzem uma espécie de “leite”

Algumas cecílias alimentam os filhotes com a própria pele e, em uma espécie, também com uma secreção semelhante a leite.

Parecem vermes ou pequenas cobras, mas as cecílias são anfíbios. E algumas espécies criam filhotes de uma forma que desafia qualquer imagem comum de cuidado parental: os jovens raspam e comem uma camada nutritiva da pele da mãe. Em outra descoberta recente, pesquisadores do Butantan mostraram que uma espécie também fornece uma secreção semelhante a leite.

Em algumas espécies ovíparas, a fêmea desenvolve uma camada externa de pele mais espessa e rica em lipídios durante o período de cuidado.
Em algumas espécies ovíparas, a fêmea desenvolve uma camada externa de pele mais espessa e rica em lipídios durante o período de cuidado.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que filhotes de cecília comem a pele da própria mãe?

Em algumas espécies ovíparas, a fêmea desenvolve uma camada externa de pele mais espessa e rica em lipídios durante o período de cuidado. Os filhotes possuem dentes temporários especializados e passam pelo corpo da mãe raspando pequenas porções desse tecido nutritivo. Depois, a pele se recompõe e o processo pode se repetir.

O comportamento foi documentado em detalhes em Boulengerula taitanus e publicado na revista Nature. A cena parece agressiva, mas não é um ataque fora de controle: envolve alterações sincronizadas tanto na pele materna quanto nos dentes dos filhotes, funcionando como investimento parental.

Estratégias reprodutivas singulares de nutrição garantem o desenvolvimento saudável da prole jovem.
Estratégias reprodutivas singulares de nutrição garantem o desenvolvimento saudável da prole jovem. - Créditos: Imagem criada por IA.

Esses dentes dos filhotes servem só para a alimentação inicial?

Os dentes infantis possuem formato adequado para raspar a epiderme e não são simplesmente versões menores da dentição adulta. Eles fazem parte de uma fase específica do desenvolvimento. Isso mostra como o cuidado parental pode moldar não apenas comportamento, mas também anatomia temporária.

Cecílias vivíparas já eram conhecidas por outro processo igualmente incomum: embriões podem raspar secreções e tecido nutritivo do oviduto materno. A diversidade do grupo sugeria havia tempo que alimentação direta dos jovens desempenhava um papel maior do que se imaginava entre esses anfíbios subterrâneos.

Onde entra o chamado leite das cobras-cegas?

Em 2024, uma equipe liderada por pesquisadores do Instituto Butantan descreveu em Siphonops annulatus uma secreção produzida por glândulas do oviduto e liberada pela abertura cloacal da mãe. Os filhotes consomem o líquido, rico em lipídios e carboidratos, durante cerca de dois meses após a eclosão.

As descobertas mostram mais de uma estratégia de alimentação materna:

  • Em algumas cecílias ovíparas, os filhotes raspam uma camada especial da pele da mãe usando dentes temporários.
  • Em Siphonops annulatus, a mãe também libera uma secreção nutritiva consumida pelos filhotes após o nascimento.
  • Cecílias vivíparas podem nutrir embriões dentro do corpo por secreções e material do oviduto.
  • Esses mecanismos evoluíram num grupo de anfíbios muito diferente dos mamíferos, portanto o termo “leite” descreve função semelhante, não uma glândula mamária.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube UOL que fala sobre a descoberta do Butantan sobre cecílias que alimentam filhotes com uma secreção nutritiva:

Isso significa que anfíbios produzem leite igual aos mamíferos?

Não. A semelhança está na função: uma secreção materna nutritiva fornecida depois que os filhotes nascem. Mamíferos produzem leite em glândulas mamárias, enquanto a cecília estudada utiliza glândulas do oviduto. Os pesquisadores falam em convergência de cuidado parental, não em identidade anatômica.

Essa distinção é importante porque descobertas surpreendentes perdem precisão quando são traduzidas apenas por comparações chamativas. A secreção das cecílias é extraordinária por si só: mostra que nutrição pós-natal elaborada apareceu por um caminho evolutivo completamente independente.

Por que um animal tão discreto mudou a conversa sobre cuidado parental?

Cecílias passam grande parte da vida escondidas no solo, e muitos comportamentos são difíceis de observar. Quando equipes conseguem manter famílias sob acompanhamento, surgem interações que provavelmente aconteceram por milhões de anos sem chamar atenção humana. Pele nutritiva e secreção cloacal são exemplos desse universo pouco conhecido.

O que parece uma cena de terror à primeira vista é, biologicamente, cuidado. A mãe investe tecido e nutrientes diretamente na sobrevivência da prole. O grupo mostra que alimentar filhotes não depende de bico, mamilo ou regurgitação: a evolução pode construir soluções muito diferentes para a mesma tarefa de manter jovens vivos.