Os olhos das renas mudam de cor durante o ano e isso ajuda o animal a enxergar no inverno quase sem luz
Uma camada refletora dos olhos das renas muda de dourada para azul conforme a estação, aumentando a sensibilidade à luz no inverno.
No verão ártico, uma camada refletora atrás da retina das renas apresenta tom dourado. Nos meses escuros, essa mesma estrutura pode se tornar azul intensa. Não é a íris mudando de cor como numa fotografia de fantasia: a transformação ocorre no tapetum lucidum, que reflete luz dentro do olho. Pesquisadores encontraram maior sensibilidade da retina nas renas estudadas no inverno, uma adaptação relevante onde o sol pode ficar ausente por longos períodos. Enxergar melhor na penumbra, porém, não significa ver todos os detalhes com mais nitidez.

Que parte do olho muda entre as estações?
O tapetum lucidum fica atrás da retina e funciona como uma superfície refletora. No estudo de Karl-Arne Stokkan e colaboradores, amostras de renas do verão apresentavam reflexo predominantemente dourado, enquanto as de inverno eram azul-escuras. A diferença foi medida, não apenas descrita a olho nu. A mudança se relaciona às condições extremas de luz em regiões árticas, onde há dias longos numa estação e longas noites em outra.
A cor não deve ser confundida com mudança visível da íris de um animal observado a distância. Fotografias podem mostrar reflexos nos olhos conforme luz e ângulo, mas a estrutura estudada está no fundo ocular. Uma matéria sobre curiosidades das renas apresenta outras adaptações ao frio; neste caso, o detalhe decisivo está na maneira como a luz atravessa e retorna à retina.

Por que o reflexo se torna azul no inverno?
Os pesquisadores associaram a cor à organização de fibras de colágeno na camada refletora. Alterações no espaçamento e no conteúdo de fluido podem modificar quais comprimentos de onda são refletidos e como a luz se espalha. A hipótese envolve mudanças fisiológicas sazonais no olho, não uma tinta produzida para colorir a visão do animal. Estudos posteriores examinaram em mais detalhe a microestrutura responsável pelo efeito.
No inverno, espalhar a luz dentro do olho pode aumentar as chances de os fotorreceptores captarem os poucos fótons disponíveis. Isso melhora a sensibilidade em baixa luminosidade, embora possa reduzir a precisão da imagem. O compromisso é útil num ambiente onde perceber movimento na penumbra pode importar mais do que distinguir contornos finos de um objeto distante.
- A camada refletora fica atrás da retina.
- O reflexo pode passar de dourado no verão a azul no inverno.
- Mais sensibilidade à luz pode vir com menor nitidez.
Quanto isso ajuda quando quase não há sol?
As medições encontraram maior sensibilidade retinal nos animais estudados no inverno. O Ártico, porém, não fica em escuridão uniforme o tempo todo: crepúsculo, luar, neve e auroras criam condições de luz variadas. A adaptação pode ajudar a detectar predadores e alimento em parte desses cenários. Não significa que as renas vejam perfeitamente no escuro absoluto, onde nenhuma luz chega ao olho para ser aproveitada.
A comparação entre estações mostrou um sistema que se ajusta ao ambiente ao longo do ano. A pesquisa não acompanhou cada indivíduo dia após dia com uma câmera apontada para seus olhos; combinou amostras sazonais e medidas fisiológicas para identificar a diferença. Essa limitação não anula o achado, mas impede contar a transformação como se cada rena trocasse de cor num instante fixo do calendário.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Natural History Museum, que explica a mudança sazonal na camada refletora dos olhos das renas:
E a percepção de luz ultravioleta?
Renas também podem perceber parte da luz ultravioleta, que humanos normalmente não enxergam. Em uma paisagem nevada, materiais diferentes refletem essa luz de maneiras distintas. Pelos, vegetação e neve podem formar contrastes úteis. Essa característica não é a mesma coisa que a mudança azul do tapetum, embora ambas participem da adaptação visual ao ambiente do norte.
A capacidade de captar ultravioleta não torna toda imagem mais bonita ou colorida para a rena. A ciência mede sensibilidade e reflexos, mas não consegue reproduzir com certeza a experiência subjetiva do animal. Descrever contrastes possíveis é mais preciso que afirmar exatamente “o que ela vê” em cada paisagem. A atenção permanece nas estruturas e nas respostas que podem ser observadas e testadas.
O que a cor do fundo do olho revela?
Revela que um órgão sensorial pode mudar conforme a estação, ajustando-se a condições de luz radicalmente diferentes. O reflexo dourado no verão e azul no inverno não é um enfeite de fotografias natalinas. Ele resulta de propriedades físicas de uma camada atrás da retina e se relaciona a maior sensibilidade no período escuro, com provável custo em nitidez.
A rena ainda depende de comportamento, olfato, audição e das condições do ambiente para se orientar. Seus olhos não funcionam isoladamente. Mas a mudança sazonal observada pelos pesquisadores dá um exemplo especialmente claro de adaptação: quando o mundo oferece menos luz, a estrutura que a devolve à retina passa a trabalhar de outra maneira.