Paleontólogos encontram quatro cobras juntas em uma toca, exatamente como morreram há 38 milhões de anos

Esqueletos excepcionalmente preservados dentro de uma antiga toca oferecem pistas sobre evolução, fossilização e comportamento social de serpentes.

Quatro serpentes morreram enroscadas dentro de uma pequena toca no atual Wyoming e permaneceram quase na mesma posição por dezenas de milhões de anos. Os fósseis de Hibernophis breithaupti, com cerca de 38 milhões de anos, são tão completos que permitem observar não apenas sua anatomia, mas uma possível cena de hibernação coletiva preservada no tempo.

Fósseis de serpentes costumam aparecer como vértebras e outros ossos separados, porque seus esqueletos delicados se desarticulam facilmente depois da morte.
Fósseis de serpentes costumam aparecer como vértebras e outros ossos separados, porque seus esqueletos delicados se desarticulam facilmente depois da morte.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que encontrar quatro cobras juntas é tão raro?

Fósseis de serpentes costumam aparecer como vértebras e outros ossos separados, porque seus esqueletos delicados se desarticulam facilmente depois da morte. No caso de Hibernophis, porém, os pesquisadores tiveram acesso a quatro indivíduos excepcionalmente completos, alguns ainda com grande parte dos ossos em suas posições originais.

O estudo liderado por pesquisadores como Jasmine Croghan e Michael Caldwell, da Universidade de Alberta, foi publicado no Zoological Journal of the Linnean Society. A análise permitiu reconhecer uma nova espécie e investigar detalhes que restos fragmentados dificilmente revelariam sobre as primeiras linhagens de serpentes do grupo Booidea.

Preservação rara mantendo múltiplos esqueletos unidos em uma única cavidade subterrânea.
Preservação rara mantendo múltiplos esqueletos unidos em uma única cavidade subterrânea. - Créditos: Zoological Journal of the Linnean Society

Como as cobras acabaram preservadas naquela posição?

Os fósseis vieram da Formação White River, no Wyoming, em uma matriz de lama arenosa fina. Segundo o estudo, os sedimentos provavelmente foram depositados durante um pequeno episódio de inundação. A região também recebeu cinzas vulcânicas, importantes para datar e compreender o ambiente geológico em que os animais foram preservados.

A combinação de circunstâncias criou uma preservação excepcional. Os principais elementos que tornaram o achado tão incomum incluem:

  • Quatro serpentes foram preservadas com grande parte dos esqueletos articulados.
  • Três indivíduos ficaram associados no mesmo conjunto rochoso examinado pelos pesquisadores.
  • Um dos esqueletos permaneceu escondido dentro da rocha e foi identificado com tomografia computadorizada.
  • Sedimentos finos de uma pequena inundação ajudaram a envolver os corpos antes que se desfizessem.

Essas serpentes estavam hibernando juntas?

A posição dos animais chamou atenção porque lembra um hibernáculo, abrigo usado por serpentes atuais para atravessar períodos frios. A ideia já havia sido levantada em estudos anteriores sobre o material e inspirou até o nome Hibernophis, formado a partir de uma referência ao ato de passar o inverno.

Michael Caldwell compara o caso às serpentes-liga modernas, conhecidas por se reunir em grande número em tocas durante a estação fria. Segundo o paleontólogo, o agrupamento fóssil pode representar uma evidência muito antiga de comportamento social ou de hibernação coletiva, embora a interpretação dependa das condições em que aqueles indivíduos foram enterrados.

Agrupamento corporal sugerindo estratégias coletivas de proteção contra o inverno rigoroso.
Agrupamento corporal sugerindo estratégias coletivas de proteção contra o inverno rigoroso. - Créditos: Zoological Journal of the Linnean Society

O que os fósseis revelam sobre a evolução das jiboias?

A anatomia mostrou que Hibernophis breithaupti pertence ao grupo Booidea, que reúne linhagens relacionadas às jiboias. As análises filogenéticas do estudo colocaram a espécie próxima à base desse grupo, oferecendo novas pistas para entender uma fase da evolução das serpentes conhecida principalmente por fósseis muito mais incompletos.

O achado também reforça a importância da América do Norte na história antiga dessas serpentes. Caldwell e seus colegas destacam que fósseis tão completos ajudam especialmente a investigar a evolução das pequenas jiboias escavadoras, grupo que inclui parentes das atuais jiboias-de-borracha encontradas no continente.

Uma pequena toca preservou uma cena extraordinária

O mais fascinante no achado não é apenas reconhecer uma nova espécie. É poder olhar para vários esqueletos juntos e perguntar o que aqueles animais estavam fazendo momentos antes de serem enterrados. A fossilização preservou uma possível cena de comportamento, algo muito mais difícil de encontrar do que ossos isolados.

Depois de dezenas de milhões de anos, uma toca no Wyoming ainda pode guardar pistas sobre como serpentes antigas enfrentavam ambientes frios e interagiam entre si. Vale acompanhar descobertas como essa de perto: novos exames de fósseis já conhecidos podem revelar comportamentos que pareciam impossíveis de recuperar do passado.