Para impedir que a lava avançasse, militares dos EUA lançaram 40 bombas sobre um vulcão havaiano em erupção em 1935
A operação militar tentou romper canais de lava no Havaí e se tornou uma das experiências vulcânicas mais incomuns da história.
Em dezembro de 1935, aviões militares lançaram 40 bombas sobre a lava do Mauna Loa em uma tentativa incomum de proteger Hilo, no Havaí. O objetivo não era apagar a erupção, mas romper os canais que mantinham a rocha derretida quente e concentrada enquanto ela avançava em direção ao abastecimento de água da cidade.

Por que a lava ameaçava a cidade de Hilo?
A erupção começou em 21 de novembro de 1935, na caldeira do Mauna Loa, e depois migrou para a Zona de Fenda Nordeste. Em 27 de novembro, uma nova abertura surgiu na encosta norte, liberando lava pāhoehoe que se acumulou entre o Mauna Loa e o Mauna Kea antes de seguir para leste.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o fluxo avançava cerca de 1,6 quilômetro por dia. Moradores e autoridades temiam que ele alcançasse o rio Wailuku, responsável pelo abastecimento de água de Hilo, criando uma ameaça direta à rotina e à segurança da população.

Como as bombas poderiam mudar o fluxo?
A lava pāhoehoe forma uma superfície lisa enquanto a parte líquida continua circulando por canais e tubos protegidos pela crosta resfriada. Esse isolamento reduz a perda de calor e permite que a rocha derretida percorra distâncias maiores com velocidade relativamente constante.
Thomas Jaggar, fundador do Observatório Vulcanológico do Havaí, e o vulcanólogo Ruy Finch propuseram romper esses caminhos. A expectativa era espalhar a lava por uma área mais ampla, diminuir sua velocidade e retirar energia do fluxo que seguia concentrado em direção a Hilo.
- A missão utilizou 20 bombas de demolição e 20 bombas menores de marcação.
- Cada bomba de demolição pesava cerca de 272 quilos e carregava 161 quilos de TNT.
- O fusível permitia que o explosivo penetrasse na superfície antes da detonação.
- Relatos indicam que 12 bombas atingiram o túnel de lava escolhido como alvo.
Como foi realizada a operação militar?
Em 27 de dezembro, aeronaves partiram de Oʻahu e seguiram até o fluxo de Humuʻula. A missão foi supervisionada pelo então tenente-coronel George S. Patton, que anos depois se tornaria um dos comandantes americanos mais conhecidos da Segunda Guerra Mundial.
O Serviço Nacional de Parques descreve a ação como o primeiro bombardeio aéreo de um fluxo de lava ativo. Jaggar acompanhou os impactos por um telescópio próximo ao Mauna Kea e declarou depois que os resultados haviam ocorrido exatamente como previsto.

O bombardeio realmente funcionou?
O fluxo perdeu força após a operação e parou em 2 de janeiro de 1936, seis dias depois. Jaggar acreditava que as explosões haviam acelerado esse fim, pois considerava improvável que a lava cessasse de forma tão abrupta apenas por causas naturais.
O geólogo Howard Stearns, do USGS, discordou dessa interpretação. Em sua autobiografia, publicada em 1983, afirmou acreditar que a interrupção tinha sido uma coincidência, já que a lava continuou avançando e não apresentou mudança significativa de direção logo após as explosões.
O que a experiência ensina hoje?
Como a atividade vulcânica já estava diminuindo, os cientistas nunca conseguiram separar o efeito das bombas do enfraquecimento natural da erupção. O próprio USGS considera controversa a eficácia de explosivos para interromper canais de lava, e estudos posteriores apontaram resultados limitados.
A operação de 1935 permanece como um capítulo marcante da tentativa humana de interferir em fenômenos naturais extremos. Mais de 90 anos depois, ela reforça uma lição atual: diante de um vulcão ativo, decisões precisam combinar urgência, ciência e cautela antes que qualquer intervenção seja colocada em prática.