Pegadas deixadas numa margem de lago há 1,4 milhão de anos revelaram que parentes humanos caminhavam juntos em grupo
Pegadas de 1,43 milhão de anos no Quênia preservaram ao menos oito hominínios caminhando juntos na mesma direção.
Ossos podem mostrar altura, idade e anatomia, mas raramente registram um momento vivido. Na margem antiga do Lago Turkana, no norte do Quênia, uma superfície com pegadas de cerca de 1,43 milhão de anos preservou oito hominínios caminhando na mesma direção, como uma fotografia comprimida no barro.

Onde as pegadas foram encontradas?
As trilhas vieram do sítio GaJi10, em East Turkana, uma região famosa por fósseis de ancestrais humanos. Sedimentos úmidos registraram os pés e foram cobertos antes que vento, água e outros animais apagassem as marcas. Camadas vulcânicas ajudaram os pesquisadores a posicionar a superfície em aproximadamente 1,43 milhão de anos.
O estudo foi publicado em 2026 na Proceedings of the National Academy of Sciences por uma equipe internacional liderada por Kevin Hatala. Diferentemente de ossos acumulados ao longo de séculos, pegadas de uma mesma superfície permitem reconstruir direção, sequência de passos e proximidade temporal entre indivíduos.

Quantos indivíduos caminharam juntos?
Uma das superfícies preservou 21 pegadas organizadas em vários trajetos, atribuídas a pelo menos oito indivíduos que cruzaram a margem em intervalo curto. A direção semelhante e a proximidade das trilhas sugerem deslocamento coletivo, embora não seja possível saber a relação entre os integrantes ou o objetivo daquele percurso.
A cena registrada por pegadas fossilizadas é valiosa justamente porque comportamento social quase nunca fossiliza. O barro não informa se o grupo caçava, procurava água ou apenas seguia pela margem, mas mostra que vários corpos estiveram ali praticamente no mesmo momento.
Quem provavelmente deixou essas marcas?
A morfologia das pegadas e os fósseis conhecidos na região levaram os pesquisadores a associar os rastros ao Paranthropus boisei, um parente humano robusto que viveu na África Oriental. A atribuição é baseada em comparação anatômica e contexto, portanto deve ser entendida como a hipótese mais bem sustentada, não como identificação individual direta.
O trabalho também revisou o tamanho corporal desse hominínio. Algumas pegadas sugerem adultos maiores do que estimativas anteriores, com indivíduos que poderiam alcançar aproximadamente 1,8 metro e 75 quilos. Isso mostra como pés impressos no solo podem corrigir uma imagem construída apenas com esqueletos incompletos.
- A superfície de GaJi10 tem cerca de 1,43 milhão de anos.
- Vinte e uma pegadas principais indicam pelo menos oito indivíduos na mesma margem.
- A forma dos rastros é compatível com Paranthropus boisei.
- Algumas estimativas apontam adultos com corpo maior do que o sugerido por fósseis conhecidos anteriormente.

Era um grupo formado só por homens?
Os tamanhos semelhantes levaram a equipe a discutir a possibilidade de muitos rastros pertencerem a machos adultos, formando algo comparável a uma associação masculina. Essa interpretação é tentadora porque grupos de machos existem em alguns primatas, mas sexo e parentesco não podem ser lidos diretamente de uma pegada fossilizada.
Os autores tratam a ideia como hipótese de comportamento social. Mais trilhas e comparações com fósseis são necessárias para saber se aquele conjunto era realmente composto por machos, se incluía fêmeas grandes ou se foi apenas uma coincidência temporária de indivíduos usando o mesmo trecho da margem.
Por que pegadas contam uma história diferente dos ossos?
Um osso registra que alguém existiu. Uma trilha registra que alguém se moveu, em qual direção e com que ritmo aproximado. Quando várias trilhas compartilham a mesma superfície, surge a chance rara de observar indivíduos coexistindo em vez de reunir fósseis separados por centenas ou milhares de anos.
Por isso, a descoberta de Turkana vale mais do que um novo número de altura. Ela preserva um instante coletivo de uma espécie humana extinta. Continuar escavando essas margens pode revelar se deslocamentos em grupo eram comuns e como diferentes hominínios dividiram a paisagem africana durante o Pleistoceno inicial.