Pesquisadores encontram vida a 8.336 metros de profundidade e registram a criatura mais profunda já vista

O pequeno peixe-caracol registrado em uma fossa japonesa vive sob pressão extrema e ajuda cientistas a investigar até onde os peixes conseguem sobreviver.

A mais de oito quilômetros abaixo da superfície do Pacífico, onde a pressão é esmagadora e a luz do Sol não chega, uma pequena criatura apareceu diante de uma câmera. O registro feito na Fossa de Izu-Ogasawara, ao sul do Japão, revelou um peixe-caracol a 8.336 metros de profundidade, estabelecendo um recorde para peixes filmados no oceano.

O animal pertence ao gênero Pseudoliparis, grupo conhecido como peixe-caracol.
O animal pertence ao gênero Pseudoliparis, grupo conhecido como peixe-caracol. - Imagem gerada por IA

Que criatura foi encontrada a 8.336 metros?

O animal pertence ao gênero Pseudoliparis, grupo conhecido como peixe-caracol. A filmagem ocorreu durante uma expedição realizada em 2022 por pesquisadores da Universidade da Austrália Ocidental e da Universidade de Ciência e Tecnologia Marinha de Tóquio, como parte de uma investigação de longo prazo sobre a vida nas fossas oceânicas.

O recorde foi detalhado em um estudo publicado em 2023 na revista Deep-Sea Research Part I, liderado pelo pesquisador Alan Jamieson. Como o indivíduo observado a 8.336 metros não foi capturado, os cientistas não puderam determinar definitivamente sua espécie, classificando-o como um peixe-caracol do gênero Pseudoliparis.

Pequeno peixe-caracol estabelece recorde histórico de profundidade em oceanos abertos.
Pequeno peixe-caracol estabelece recorde histórico de profundidade em oceanos abertos. - Créditos: Universidade da Austrália Ocidental.

Como os cientistas encontraram o peixe mais profundo?

A equipe utilizou equipamentos não tripulados equipados com câmeras e iscas para investigar as fossas do Japão, Izu-Ogasawara e Ryukyu. Na Fossa de Izu-Ogasawara, peixes-caracol foram observados entre aproximadamente 6.824 e 8.336 metros, sendo o indivíduo responsável pelo recorde um pequeno juvenil.

A pesquisa revelou outros detalhes que ajudam a mostrar como esses animais ocupam um ambiente que parecia próximo do limite possível para peixes:

  • O peixe recordista foi filmado a exatamente 8.336 metros na Fossa de Izu-Ogasawara.
  • Peixes-caracol foram observados em diferentes profundidades durante as operações com câmeras submarinas.
  • Dois exemplares de Pseudoliparis belyaevi foram capturados a 8.022 metros na vizinha Fossa do Japão.
  • Os exemplares de 8.022 metros estabeleceram também o recorde de peixes fisicamente coletados na maior profundidade.

Como um peixe consegue sobreviver em tamanha profundidade?

A zona hadal, que ocupa as grandes fossas oceânicas, impõe condições extremas. A pressão aumenta drasticamente com a profundidade, a água é fria e não existe luz solar. Peixes-caracol de grandes profundidades possuem adaptações fisiológicas e corporais que permitem o funcionamento das células e tecidos sob pressões que seriam incompatíveis com muitos outros vertebrados.

Apesar disso, existe um limite para essa adaptação. Estudos sobre peixes hadal indicam que alterações químicas necessárias para estabilizar proteínas diante da pressão podem ajudar a definir uma profundidade máxima para a sobrevivência dos peixes. O registro a 8.336 metros, portanto, está muito próximo de uma fronteira biológica excepcional.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Universo Animal mostrando o peixe que vive no lugar mais profundo do mundo.

Por que as fossas do Japão abrigam tantos peixes?

Para Alan Jamieson, a profundidade não deve ser analisada isoladamente. A temperatura e a produtividade biológica também influenciam onde esses animais conseguem viver. As fossas próximas ao Japão apresentam condições diferentes das encontradas em regiões como a Fossa das Marianas, permitindo populações relativamente abundantes de peixes-caracol em grandes profundidades.

A alimentação também depende do que chega das camadas superiores. Pequenos crustáceos consomem matéria orgânica que afunda lentamente pelo oceano e, por sua vez, servem de alimento aos peixes. É uma cadeia alimentar sustentada por recursos vindos de milhares de metros acima, mostrando como até o fundo das fossas permanece conectado à superfície.

O recorde mostra quanto ainda desconhecemos dos oceanos

O mais surpreendente talvez seja que os pesquisadores já suspeitavam que as fossas japonesas poderiam revelar o peixe mais profundo conhecido. Depois de mais de 15 anos estudando esses animais, a equipe conseguiu prever onde provavelmente estaria o limite, e a observação a 8.336 metros confirmou que a vida pode chegar muito perto dessa fronteira.

A descoberta também deixa uma pergunta aberta: o que mais existe nas regiões que quase nunca conseguimos observar? Explorar as fossas oceânicas exige equipamentos especializados e enorme esforço científico. Por isso, cada nova expedição merece atenção, pois ainda há vastas áreas do planeta onde uma câmera pode revelar algo nunca visto antes.