Pinturas rupestres resistiram por 2.000 anos na China e cientistas identificaram o ingrediente por trás disso
Análises químicas indicam que artistas do sul da China desenvolveram uma argamassa biomineral capaz de fixar pigmentos por milênios.
Durante mais de 2.000 anos, figuras vermelhas resistiram ao calor acima de 40°C, à umidade, aos tufões e às chuvas intensas do sul da China. Agora, cientistas descobriram que essa resistência não dependeu apenas de pigmento: os antigos artistas de Huashan preparavam uma mistura sofisticada com cal, argila e até sangue.

O que havia por baixo das pinturas de Huashan?
As pinturas rupestres estão distribuídas por mais de 80 locais ao longo de cerca de 260 quilômetros do vale do rio Zuojiang, em Guangxi. Produzidas entre o século V a.C. e o século II d.C., mostram pessoas, animais e objetos de bronze sobre paredões de calcário expostos a um clima subtropical severo.
Uma equipe liderada pela Universidade de Shandong e pelo Museu de Antropologia de Guangxi analisou fragmentos de Gaoshan, Daningshan e Tupingshan. Segundo estudo publicado no Journal of Archaeological Science, abaixo do pigmento existia uma fina argamassa artificial, preparada antes da pintura.

Qual era a receita usada pelos antigos artistas?
A análise revelou uma combinação de carbonato de cálcio, fosfato de cálcio, silicatos, sulfatos e proteínas. A camada podia variar de apenas 1 micrômetro a 150 micrômetros de espessura, enquanto suas partículas tinham menos de 3 micrômetros, uma uniformidade muito diferente dos sedimentos naturais encontrados nas proximidades.
- A cal fornecia o carbonato de cálcio responsável pela ligação mineral com a rocha.
- A argila vermelha participava da composição do pigmento aplicado sobre o calcário.
- O sangue fornecia proteínas que integravam a estrutura orgânica da mistura.
- Ossos, conchas e possivelmente guano podiam fornecer outros minerais necessários à preparação.
A resistência do material impressionou a equipe. Algumas amostras de Gaoshan estavam tão aderidas que precisaram ser retiradas com uma furadeira elétrica, enquanto sedimentos próximos se desfaziam facilmente. Para os autores, isso mostra que os criadores dominavam deliberadamente uma técnica de preparação da superfície.
O sangue usado poderia ter vindo de mulheres?
Os pesquisadores encontraram albumina, fibrinogênio e imunoglobulinas em todas as amostras analisadas. Em três fragmentos de Gaoshan, mais de 97% das proteínas identificadas foram atribuídas a Homo sapiens. Em Daningshan, a proporção encontrada foi de 61% de proteínas humanas e 39% bovinas.
Proteínas associadas em maior abundância à gravidez e à lactação, como lactotransferrina e proteína induzida por prolactina, levaram a equipe a propor que parte do sangue poderia ter vindo de mulheres durante ou após o parto. A hipótese é tratada como provável pelos autores, não como uma identificação definitiva da origem individual do material.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Gweilo 60 mostrando as pinturas de Huashan.
Por que as pinturas resistiram por dois milênios?
Embora o sangue seja o ingrediente mais surpreendente, o estudo aponta o carbonato de cálcio como peça central da conservação. Quando a cal reagia com o ar, formava cristais ao redor do pigmento e criava uma ligação resistente com o calcário. Uma amostra de Tupingshan sem esse componente apresentou pigmento muito mais fácil de desprender.
Os próprios autores resumem o mecanismo ao afirmar que esse sistema de ligações orgânicas e inorgânicas revela processos tecnológicos complexos e ajuda a explicar a preservação excepcional das imagens. Eles também destacam que é o carbonato de cálcio, e não o oxalato de cálcio, que prende o pigmento à rocha.
O que a descoberta revela sobre os criadores de Huashan?
Os ingredientes necessários estavam disponíveis localmente, mas reuni-los não era a parte mais difícil. Era preciso saber transformar calcário em cal, selecionar materiais, controlar proporções e preparar uma camada fina capaz de suportar décadas e séculos de exposição. Isso coloca a arte de Huashan também como resultado de conhecimento técnico acumulado.
Segundo os pesquisadores, as descobertas mostram que a produção dessas pinturas foi tecnicamente complexa, e não apenas trabalhosa. A mensagem muda nossa percepção sobre seus criadores: vale olhar para essas imagens não só como arte antiga, mas como evidência urgente de uma tecnologia que dominava materiais muito antes da ciência moderna explicar por quê.