Pinturas vermelhas sobreviveram quase 2 mil anos sob chuva e calor e análises encontraram sangue na receita usada para grudá las à rocha
Análises de pinturas de Huashan indicam hematita, carbonato de cálcio e sinais compatíveis com sangue na antiga mistura.
Nas paredes calcárias de Huashan, no sul da China, figuras vermelhas permanecem visíveis depois de quase dois milênios de calor, umidade e chuva. Para entender como o pigmento aderiu por tanto tempo, pesquisadores analisaram a camada microscópica da tinta e chegaram a uma combinação inesperada: hematita, carbonato de cálcio biomineralizado e sinais compatíveis com uso de sangue.

O que torna as pinturas de Huashan tão difíceis de preservar?
A arte rupestre está exposta num ambiente subtropical úmido, onde água, variação de temperatura e atividade biológica favorecem alteração de superfícies. Mesmo assim, extensos painéis vermelhos permaneceram aderidos às paredes. Isso levou pesquisadores a investigar não apenas o pigmento, mas o material que funcionava como ligante.
O estudo publicado no Journal of Archaeological Science analisou amostras e identificou partículas de hematita associadas à cor vermelha. A novidade estava no componente mineral de carbonato de cálcio e nas evidências de que sua formação teria sido induzida por material biológico usado na preparação.

Como os cientistas chegaram à hipótese de sangue na mistura?
A equipe combinou caracterização mineralógica e análises químicas do material preservado. Os autores interpretaram a estrutura do carbonato como produto de biomineralização e identificaram biomarcadores que consideraram compatíveis com sangue. A hipótese é que esse componente tenha ajudado a formar um ligante capaz de aderir o pigmento à rocha.
Isso não significa que seja possível reconstruir uma “receita” exata em copos e medidas. Materiais orgânicos se degradam, contaminantes podem entrar ao longo de séculos e biomarcadores nem sempre são exclusivos de uma única origem. O resultado aponta para um mecanismo plausível que precisa ser lido dentro das limitações do estudo.
O sangue teria funcionado como cola?
Em termos simples, o componente biológico pode ter favorecido a formação de carbonato de cálcio com propriedades de ligação, enquanto a hematita fornecia a cor. Essa matriz ajudaria partículas vermelhas a permanecerem associadas à superfície calcária. O interesse está na combinação entre química orgânica e mineralização, não apenas no ingrediente chamativo.
A pesquisa separa diferentes peças dessa tinta antiga:
- Nanopartículas de hematita foram identificadas como principal fonte da coloração vermelha.
- O material ligante continha carbonato de cálcio com características interpretadas como biomineralização.
- Os autores encontraram sinais que associam o processo ao uso de sangue como componente orgânico.
- A durabilidade final depende também da rocha, do microambiente, da aplicação e das transformações ocorridas durante séculos.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube TV Cultura que fala sobre pinturas rupestres e a pesquisa arqueológica usada para compreender essas imagens antigas:
O estudo prova que era sangue humano ligado a parto?
Não com o mesmo grau de segurança. Os autores discutem sangue animal ou humano e levantam inclusive possibilidades relacionadas a parto a partir de biomarcadores, mas essa é a parte mais interpretativa da pesquisa. Indicadores bioquímicos podem ter outras explicações e a contaminação histórica precisa ser considerada.
Por isso, a formulação correta é que a equipe propõe essas origens, não que uma cerimônia específica tenha sido demonstrada. A arqueometria é especialmente valiosa quando consegue separar níveis de confiança: identificar um mineral pode ser mais robusto do que reconstruir a identidade da pessoa ou a circunstância em que um material biológico foi coletado.
O que essa tinta muda na maneira de olhar uma pintura rupestre?
A imagem não é só desenho. É também tecnologia de materiais. Escolher pigmento, preparar ligante e fazê-lo aderir a uma parede externa exige conhecimento adquirido por experimentação, mesmo sem conceitos químicos modernos. Análises instrumentais permitem recuperar parte desse saber a partir de partículas quase invisíveis.
O resultado de Huashan é interessante justamente porque conecta arte e engenharia. A cor que vemos hoje depende de uma mistura que seus autores fizeram funcionar em uma superfície difícil há muitos séculos. O próximo passo é testar até onde essa composição se repete em outros painéis e quais partes da interpretação resistem a novas amostras.