Por que acender incenso em casa todos os dias pode fazer mal: estudo comparou a fumaça com a do cigarro e encontrou efeito mais tóxico sobre as células

A fumaça do incenso pode liberar compostos tóxicos. Entenda o que um estudo de 2015 encontrou ao comparar incenso e cigarro e quais são suas limitações

Acender um incenso para relaxar, meditar ou perfumar a casa parece um hábito inofensivo, mas a fumaça liberada durante a queima contém partículas e compostos químicos que podem afetar a qualidade do ar. Um estudo publicado em 2015 na revista Environmental Chemistry Letters comparou amostras de fumaça de incenso com fumaça de cigarro e encontrou maior toxicidade celular nas amostras de incenso analisadas em testes laboratoriais. O resultado exige cautela: os experimentos foram realizados fora do organismo humano, com produtos específicos de sândalo e agarwood, e não demonstram que o incenso seja sempre mais prejudicial do que o cigarro. Ainda assim, a pesquisa reforça a importância de evitar a exposição frequente à fumaça em ambientes fechados.

Incenso pode ser mais tóxico que cigarro? Pesquisa chinesa encontrou efeitos celulares preocupantes, mas foi realizada in vitro e não prova o mesmo risco em humanos.
Incenso pode ser mais tóxico que cigarro? Pesquisa chinesa encontrou efeitos celulares preocupantes, mas foi realizada in vitro e não prova o mesmo risco em humanos.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a fumaça do incenso pode fazer mal à saúde?

Quando um incenso queima, libera partículas suspensas e substâncias voláteis que podem permanecer no ar e ser inaladas. A composição depende dos ingredientes, do material utilizado para sustentar a queima, das fragrâncias adicionadas e das condições do ambiente. Em espaços pequenos ou pouco ventilados, os poluentes podem se acumular, aumentando o contato das pessoas com a fumaça. A exposição repetida pode irritar os olhos e as vias respiratórias, especialmente em pessoas sensíveis.

O estudo de 2015, conduzido por pesquisadores chineses, analisou quatro amostras de incenso feitas com ingredientes que incluíam sândalo e agarwood, também conhecido como madeira de agar. Os pesquisadores identificaram diversas substâncias químicas e partículas finas, além de efeitos tóxicos em testes com células de ovário de hamster chinês. A Organização Mundial da Saúde também reconhece a queima de incenso como uma possível fonte de poluição do ar interior, conforme sua análise sobre poluentes gerados pela combustão em ambientes domésticos.

O incenso pode ser mais tóxico do que o cigarro?

Essa comparação ganhou destaque porque, nas condições específicas do experimento, todas as frações de partículas de incenso avaliadas apresentaram maior citotoxicidade do que a fumaça de um cigarro de referência. Citotoxicidade é a capacidade de causar danos às células. Em alguns testes, uma das amostras de incenso também apresentou maior genotoxicidade, ou seja, maior potencial de afetar o material genético. Esses resultados chamam a atenção para a composição da fumaça, mas não medem diretamente o risco de doenças em pessoas expostas no dia a dia.

Há limitações importantes: o estudo utilizou poucas amostras, avaliou produtos específicos e realizou testes in vitro, em condições laboratoriais que não reproduzem integralmente a exposição humana. Além disso, um dos autores tinha vínculo com uma empresa da indústria do tabaco, aspecto que deve ser considerado na avaliação crítica da pesquisa. Portanto, não é correto concluir que qualquer incenso seja mais perigoso do que qualquer cigarro. O achado mostra que a fumaça de incenso não deve ser considerada automaticamente inofensiva apenas por ter origem em materiais aromáticos.

Acender incenso diariamente pode expor a casa à fumaça e partículas. Veja o que a ciência já descobriu e por que a ventilação é importante.
Acender incenso diariamente pode expor a casa à fumaça e partículas. Veja o que a ciência já descobriu e por que a ventilação é importante.Imagem gerada por inteligência artificial

O que a fumaça do incenso pode provocar quando o hábito é frequente?

A inalação da fumaça pode provocar irritação nos olhos, no nariz e na garganta, além de piorar sintomas em pessoas com asma ou outras doenças respiratórias. A intensidade dos efeitos depende da concentração de poluentes, da frequência de uso, da ventilação e da sensibilidade individual. A presença de partículas finas é especialmente relevante porque elas podem penetrar profundamente no sistema respiratório. No entanto, o estudo de 2015 não acompanhou pessoas ao longo do tempo e, por isso, não permite afirmar que acender incenso diariamente cause diretamente uma doença específica.

Para quem costuma utilizar fragrâncias em casa, vale considerar também a qualidade geral do ar interior. A fumaça de incenso não é a única fonte de partículas: velas, cigarro, certos processos de cozimento e outras formas de combustão também podem contribuir para a poluição doméstica. Uma matéria do Catraca Livre sobre as partículas que se acumulam dentro de casa ajuda a contextualizar como diferentes fontes podem afetar o ambiente em que respiramos.

Como usar fragrâncias em casa e reduzir a exposição à fumaça?

A medida mais eficaz para evitar a exposição à fumaça do incenso é não queimá-lo, especialmente em quartos pequenos ou ambientes ocupados por pessoas com maior sensibilidade respiratória. Se a pessoa optar por utilizá-lo ocasionalmente, deve evitar espaços fechados, manter a renovação do ar e nunca deixar o incenso queimando sem supervisão. Abrir janelas e portas pode ajudar a dispersar os poluentes, embora a ventilação não elimine totalmente a exposição nem torne a queima isenta de riscos.

Para perfumar a casa, alternativas sem combustão incluem flores frescas, sachês aromáticos e a abertura das janelas quando a qualidade do ar externo permitir. Produtos perfumados também podem provocar irritação ou alergias em algumas pessoas, por isso a escolha deve levar em conta a sensibilidade de quem vive no ambiente. Se houver tosse persistente, falta de ar ou piora de sintomas respiratórios associada à fumaça, interrompa a exposição e procure orientação de saúde. O objetivo não é criar medo em torno de uma prática cultural ou religiosa, mas permitir que cada pessoa compreenda os riscos e faça escolhas mais informadas.