Por que um dos deuses mais importantes do Egito era representado por dois animais que não parecem ter nada em comum
Uma análise da luz refletida por penas e pelos oferece uma nova explicação para um mistério religioso que atravessou milhares de anos.
Por milhares de anos, os antigos egípcios representaram Thoth de duas maneiras que parecem não combinar: como um íbis de plumagem branca e como um babuíno de pelos prateados. Uma pesquisa publicada em 2026 encontrou uma possível explicação surpreendente para essa escolha. Os dois animais refletem a luz de maneira semelhante ao brilho da Lua, astro profundamente associado à divindade.

Quem era Thoth para os antigos egípcios?
Thoth ocupava uma posição especial na religião egípcia. Era relacionado à sabedoria, à escrita, à magia, ao conhecimento e à Lua. Suas representações mais famosas recorriam ao íbis-sagrado, Threskiornis aethiopicus, e ao babuíno-hamadryas, Papio hamadryas, dois animais visualmente muito diferentes.
Essa diferença intrigava estudiosos porque muitas divindades egípcias estavam associadas de maneira mais consistente a determinado animal. No caso de Thoth, porém, uma ave de bico longo e um primata estrangeiro ao ambiente egípcio compartilhavam o mesmo papel sagrado. A pergunta era o que os antigos poderiam ter percebido em comum entre eles.

O que a luz da Lua revelou aos pesquisadores?
Catherine Hobaiter, da Universidade de St Andrews, e Nathaniel Dominy, do Dartmouth College, decidiram investigar a hipótese sem depender apenas da percepção humana das cores. Para isso, recorreram à espectroscopia, técnica capaz de medir como diferentes superfícies refletem comprimentos de onda da luz.
- Doze exemplares do Museu Americano de História Natural foram analisados com um espectrômetro.
- A pelagem do babuíno-hamadryas apresentou características espectrais muito próximas às da luz lunar.
- As penas brancas do íbis-sagrado também produziram um perfil comparável ao brilho da Lua.
- Os machos de babuíno chamaram atenção pelas bochechas claras e pela longa pelagem prateada dos ombros.
O resultado fortaleceu a ideia de que a coloração lunar pode ter contribuído para a escolha dos dois animais como manifestações de Thoth. Em vez de uma coincidência visual percebida hoje, a semelhança pôde ser analisada por meio das propriedades físicas da luz refletida por penas e pelos.
Por que justamente esses dois animais foram escolhidos?
Os antigos egípcios conheciam outras espécies que poderiam ter ocupado o mesmo lugar. Pelo menos três tipos de íbis estavam presentes na região, mas o íbis de plumagem branca tornou-se especialmente associado a Thoth. Entre os primatas conhecidos pelos egípcios, foi justamente o babuíno-hamadryas, de aparência prateada, que ganhou esse status.
O íbis ainda oferecia outro detalhe sugestivo: seu longo bico curvado já havia sido comparado à forma crescente da Lua. Os pesquisadores argumentam que a combinação entre formato, plumagem brilhante e comportamento visual da ave pode ter reforçado essa conexão, enquanto a pelagem clara explicaria por que o babuíno também entrou nesse universo simbólico.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Ancient Egypt explicando por que Thoth tem a forma de dois animais.
O que havia de tão estranho nos babuínos do Egito?
Diferentemente dos íbis, babuínos não viviam naturalmente no Egito. Mesmo assim, centenas de múmias e esqueletos desses animais foram encontrados em contextos religiosos. Evidências indicam que eles chegavam por antigas rotas comerciais vindas de outras regiões da África, mostrando o esforço necessário para incorporar esses primatas aos cultos egípcios.
Mais de uma espécie de babuíno foi mumificada, incluindo o babuíno-oliva. A análise revelou, porém, uma diferença interessante: sua pelagem produz uma tonalidade mais esverdeada, enquanto a do hamadryas apresenta o aspecto prateado semelhante ao luar. Isso oferece uma possível explicação para a preferência religiosa por uma espécie específica.
A ciência finalmente explicou as duas formas de Thoth?
A descoberta não permite afirmar com certeza o que pensavam pessoas que viveram há milhares de anos, mas oferece uma hipótese mensurável para um antigo mistério. A egiptóloga Salima Ikram, que não participou da pesquisa, avaliou que o estudo apresenta uma explicação plausível para a associação particular entre Thoth e o babuíno-hamadryas.
Talvez seja justamente isso que torne o resultado tão fascinante. A aparência de uma pena ou o brilho de uma pelagem pode ter carregado significados que atravessaram milênios. Ao observar novamente as imagens de Thoth, vale reparar nesses tons claros: a Lua pode ter sido o elo invisível entre dois animais completamente diferentes e um dos deuses mais importantes do Egito antigo.