Poucas pessoas sabem, mas uma cidade espanhola vive há séculos em casas cavadas dentro da montanha, sem precisar de ar-condicionado nem aquecedor, e desafia tudo o que a arquitetura moderna considera essencial
As casas-cueva começaram a se espalhar principalmente após a Reconquista cristã, entre o final do século 15 e o início do século 16
Guadix, no sul da Espanha, preserva mais de 2 mil casas-cueva escavadas nas colinas de argila. Essas moradias subterrâneas mantêm a temperatura interna próxima de 18 °C a 20 °C durante o ano, reduzindo a necessidade de climatização mesmo diante dos verões quentes e dos invernos frios da Andaluzia.

Como surgiram as casas cavadas nas colinas de Guadix?
As casas-cueva começaram a se espalhar principalmente após a Reconquista cristã, entre o final do século 15 e o início do século 16. Grupos que viviam à margem do núcleo urbano encontraram nas elevações argilosas um material firme o bastante para sustentar cômodos, mas macio o suficiente para ser escavado com ferramentas manuais.
- A argila permitia abrir quartos e corredores sem erguer paredes externas;
- As encostas protegiam as moradias do vento e das mudanças bruscas de temperatura;
- Novos ambientes podiam ser ampliados conforme a família crescia;
- Portas, janelas e chaminés formavam o sistema de ventilação da casa.
Por que a temperatura permanece estável durante o ano?
A grande camada de terra ao redor dos cômodos funciona como um isolamento térmico natural. O calor do verão demora a atravessar a argila, enquanto as baixas temperaturas do inverno também encontram dificuldade para chegar ao interior da moradia.
Enquanto a temperatura externa pode variar bastante entre as estações, muitas casas-cueva permanecem entre 18 °C e 20 °C. Isso não significa que nenhuma residência use aquecimento, mas a estabilidade térmica reduz o consumo de energia necessário para manter os ambientes confortáveis.
Uma arquitetura moldada diretamente no terreno
As casas não são cavernas naturais ocupadas posteriormente. Elas foram abertas por trabalhadores conhecidos como “picaores”, que escavavam uma entrada principal e criavam novos cômodos a partir dela. As fachadas brancas e as chaminés que surgem no alto das colinas são as poucas partes visíveis do lado de fora.
- Paredes espessas de terra que abafam ruídos externos;
- Quartos distribuídos no interior das colinas;
- Chaminés verticais abertas até a superfície;
- Fachadas caiadas construídas na entrada das cavernas;
- Ventilação feita pela circulação entre portas, janelas e chaminés.

A grande camada de terra ao redor dos cômodos funciona como um isolamento térmico natural. - Imagem gerada por IA
Como é viver em uma casa-cueva atualmente?
As moradias de Guadix foram adaptadas para receber eletricidade, água encanada, cozinhas, banheiros e conexão à internet. A arquitetura subterrânea continua preservada, mas o interior pode ter os mesmos móveis e equipamentos encontrados em uma casa convencional.
Algumas cavernas funcionam como residências, hotéis, restaurantes e espaços culturais. Esse aproveitamento mostra que casas construídas com materiais e estruturas improváveis podem combinar soluções antigas com as necessidades atuais sem apagar sua origem.
Por que esse bairro se tornou um patrimônio vivo?
Com mais de 2 mil habitações subterrâneas e milhares de moradores, o Bairro das Cavernas é considerado um dos maiores conjuntos trogloditas habitados da Europa. O Centro de Interpretação das Cavernas, instalado em antigas casas, apresenta utensílios, técnicas de escavação e ambientes que explicam a evolução desse modo de morar.
Guadix demonstra que orientação solar, espessura das paredes, ventilação e características do solo podem controlar o conforto térmico antes mesmo da instalação de máquinas. As casas-cueva permanecem habitadas porque a argila oferece silêncio, temperatura estável e espaços que podem ser ampliados dentro da própria montanha.