Predador colossal viveu antes dos dinossauros e era mais próximo dos mamíferos do que parece

O grande predador do Permiano parecia um réptil, mas pertencia aos sinapsídeos e guardava uma ligação evolutiva inesperada com os mamíferos.

Muito antes de qualquer dinossauro caminhar pela Terra, um predador de dentes cortantes já ocupava o topo de ecossistemas terrestres. O Dimetrodon, que viveu no Permiano, parecia um enorme réptil com uma vela nas costas. A semelhança, porém, engana: ele pertencia aos sinapsídeos, linhagem evolutivamente mais próxima dos mamíferos do que dos dinossauros.

O Dimetrodon viveu dezenas de milhões de anos antes do aparecimento dos primeiros dinossauros.
O Dimetrodon viveu dezenas de milhões de anos antes do aparecimento dos primeiros dinossauros.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que o Dimetrodon não era um dinossauro?

O Dimetrodon viveu dezenas de milhões de anos antes do aparecimento dos primeiros dinossauros. Apesar da postura, do crânio e da aparência que durante muito tempo fizeram o público associá-lo aos répteis, sua anatomia revela outra história. Ele fazia parte dos sinapsídeos, grupo definido por características específicas do crânio.

A paleontóloga Kirstin Brink, da Universidade de Manitoba, resume essa relação de forma curiosa: seres humanos são evolutivamente mais próximos do Dimetrodon do que dos répteis modernos. Isso não significa que ele tenha sido ancestral direto dos mamíferos, mas que ocupava um ramo da árvore da vida ligado à linhagem que, muito depois, daria origem a eles.

Estrutura craniana posiciona o animal longe da classificação direta dos dinossauros.
Estrutura craniana posiciona o animal longe da classificação direta dos dinossauros. - Créditos: Imagem criada por IA.

Como um fóssil ajudou a corrigir essa história?

Parte da confusão começou ainda no século XIX. Em 1845, uma mandíbula descoberta na Ilha do Príncipe Eduardo foi chamada de Bathygnathus borealis e inicialmente interpretada como pertencente a um dinossauro antigo. Estudos posteriores mostraram que o animal era, na verdade, um sinapsídeo relacionado ao Dimetrodon.

Em um estudo publicado em 2015 no Canadian Journal of Earth Sciences, Brink e colegas defenderam a identificação do material como Dimetrodon borealis. A classificação do gênero ainda contém dúvidas, já que exemplares considerados espécies diferentes podem representar indivíduos jovens de outras espécies.

  • O Dimetrodon viveu durante o Permiano, muito antes dos primeiros dinossauros.
  • O gênero pertence aos sinapsídeos, grupo evolutivamente ligado à origem dos mamíferos.
  • Algumas espécies ultrapassavam 2 metros de comprimento e ocupavam posição de grandes predadores.
  • Pelo menos 14 espécies já foram atribuídas ao gênero, embora parte da classificação permaneça discutida.

Para que servia a enorme vela nas costas?

A estrutura formada por espinhos vertebrais alongados é a característica mais famosa do Dimetrodon e também uma das mais misteriosas. Uma hipótese tradicional propõe que a vela ajudava na termorregulação, permitindo ao animal absorver ou dissipar calor conforme sua posição em relação ao Sol.

O problema é que evidências anatômicas não sustentam uma explicação tão simples. Estudos da estrutura não encontraram sinais convincentes de uma vascularização adequada para uma troca térmica extremamente eficiente. Brink também lembra que parentes como Sphenacodon tinham proporções semelhantes sem desenvolver uma vela comparável, mantendo aberta a possibilidade de funções sociais ou visuais.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Zoomundo mostrando curiosidades sobre o Dimetrodon.

O que os dentes revelaram sobre sua alimentação?

Os dentes oferecem pistas mais concretas. Uma pesquisa de Brink publicada na Nature Communications mostrou mudanças dentárias ao longo da evolução do grupo, incluindo dentes em formato de lâmina e, em formas posteriores, bordas serrilhadas capazes de cortar tecidos com eficiência. Isso indica um predador bem adaptado ao processamento de carne.

Entre suas possíveis presas estavam grandes anfíbios, como Diplocaulus e Eryops, além de outros vertebrados disponíveis nos ecossistemas do Permiano. Brink chegou a resumir a posição desses predadores dizendo que eles comiam “basicamente o que queriam”, uma referência à ampla vantagem que grandes espécies podiam ter sobre outros animais de seu ambiente.

Por que esse predador continua tão fascinante?

O Dimetrodon desapareceu muito antes do domínio dos grandes dinossauros e já não existia quando ocorreu a extinção Permiano-Triássico, há cerca de 252 milhões de anos. Mesmo assim, seus fósseis preservaram uma combinação rara de pistas sobre alimentação, evolução e experimentos anatômicos que aconteceram em um mundo terrestre muito diferente do atual.

O mais surpreendente é que um animal tão frequentemente confundido com dinossauros conta, na verdade, uma história mais próxima da linhagem dos mamíferos. Olhar novamente para o Dimetrodon muda nossa visão sobre a pré-história: antes dos dinossauros dominarem o planeta, outros predadores extraordinários já haviam ocupado esse papel.