Aos 97 anos, professora aposentada volta à sala de aula como voluntária e diz que continua porque os alunos a mantêm curiosa

Helena se aposentou oficialmente aos 65 anos depois de uma vida inteira no ensino fundamental.

Três vezes por semana, pouco antes das 8h, dona Helena entra pelo mesmo portão da escola onde começou a dar aulas décadas atrás. Aos 97 anos, ela não precisa mais trabalhar e poderia passar as manhãs em casa. Mesmo assim, escolheu voltar à sala de aula como voluntária. Ajuda na leitura, acompanha atividades e conversa com alunos que poderiam ser seus bisnetos. Quando perguntam por que continua indo, a resposta é simples: “Eles me fazem continuar curiosa.”

No começo, muitas crianças ficavam curiosas apenas por causa da idade.
No começo, muitas crianças ficavam curiosas apenas por causa da idade.Imagem gerada por inteligência artificial

A aposentadoria durou menos do que ela imaginava

Helena se aposentou oficialmente aos 65 anos depois de uma vida inteira no ensino fundamental. Nos primeiros meses, aproveitou a rotina mais tranquila, organizou a casa e passou mais tempo com a família. Mas logo percebeu que sentia falta de uma parte muito específica do trabalho: estar perto de crianças aprendendo alguma coisa pela primeira vez.

Alguns anos depois, começou a voltar à escola em eventos e projetos pontuais. Primeiro para ler histórias. Depois para ajudar alunos com dificuldade em leitura. Aos poucos, as visitas deixaram de ser ocasionais e viraram parte da semana.

Na sala, ela não tenta ocupar o lugar do professor

Helena gosta de deixar isso claro. Ela não voltou para comandar a turma nem para repetir a maneira como ensinava décadas atrás. Hoje, senta ao lado dos alunos, escuta dúvidas e ajuda principalmente em atividades de leitura e escrita.

A rotina costuma ser simples:

  • acompanhar pequenos grupos durante a leitura;
  • ouvir alunos que ainda têm vergonha de ler em voz alta;
  • ajudar na organização de textos curtos;
  • contar histórias de como era a escola em outras épocas;
  • conversar com as crianças durante os intervalos.

Ela diz que aprendeu a perguntar mais e corrigir menos. “Quando você tem 97 anos, percebe que não precisa ter resposta para tudo”, costuma brincar.

Os alunos também começaram a ensinar coisas para ela

No começo, muitas crianças ficavam curiosas apenas por causa da idade. Queriam saber se Helena tinha televisão quando era pequena, como eram os telefones e se ela realmente havia vivido antes de existir internet.

Com o tempo, a curiosidade passou para os dois lados. Foram os alunos que ensinaram Helena a ampliar letras no tablet, mandar mensagens de voz e procurar fotografias antigas na internet. Ela, em troca, contou como fazia pesquisas em enciclopédias e como preparava aulas à mão.

Uma das alunas, de 10 anos, diz que gosta de sentar perto dela porque “ela sempre tem uma história, mas também pergunta sobre as nossas”. Outro aluno conta que Helena nunca parece surpresa quando alguém erra uma palavra. “Ela só manda tentar de novo.”

A idade mudou o ritmo, mas não a vontade de estar presente

Helena já não permanece o dia inteiro na escola. Caminha devagar, usa uma bengala em dias de maior cansaço e prefere atividades sentadas. Quando sente que a manhã foi longa, volta para casa mais cedo.

A própria escola adaptou a participação àquilo que ela consegue fazer com conforto. Não há cobrança de horário rígido nem responsabilidade que dependa exclusivamente dela. O voluntariado existe justamente porque ela quer estar ali.

Para Helena, essa liberdade mudou completamente a relação com a sala de aula. Ela não precisa terminar conteúdo, preencher relatórios ou controlar uma turma inteira. Pode se concentrar apenas no que mais gosta: observar o momento em que uma criança finalmente entende alguma coisa.

No começo, muitas crianças ficavam curiosas apenas por causa da idade.
No começo, muitas crianças ficavam curiosas apenas por causa da idade.Imagem gerada por inteligência artificial

O vínculo com os mais jovens virou a principal razão para continuar

A família já perguntou algumas vezes se ela não prefere descansar. Helena responde que descansa nos outros dias. O que não quer é perder o contato com pessoas muito mais novas, porque acredita que isso a obriga a continuar prestando atenção no que muda ao redor.

Ela acompanha palavras novas, músicas que nunca ouviu e tecnologias que ainda acha estranhas. Em vez de rejeitar aquilo que não conhece, pergunta aos alunos como funciona. Foi assim que aprendeu expressões usadas nas redes sociais e descobriu jogos que sequer sabia que existiam.

Segundo ela, essa troca é o que faz diferença. “Eu ensino algumas coisas que eles ainda não sabem e eles me mostram um mundo que continua mudando.”

Aos 97 anos, voltar à escola deixou de ser trabalho e virou escolha

Helena não recebe salário, não precisa cumprir jornada e não depende da escola para se manter. Isso muda completamente o sentido de sua presença ali. Ela continua porque encontra na convivência uma razão para sair de casa, se preparar e descobrir algo novo.

Aos 97 anos, a professora aposentada encontrou na sala de aula não uma obrigação, mas uma forma de continuar curiosa. Enquanto ajuda crianças a ler melhor, escuta perguntas que nunca ouviu antes e aprende com alunos separados dela por quase nove décadas, Helena mantém uma rotina que não existe por necessidade. Existe porque, para ela, ainda há coisas demais para aprender.