Professora perde a mãe e o irmão em um intervalo de três meses, muda de cidade e encontra na antiga profissão do pai uma maneira de reconstruir a própria vida

Após enfrentar perdas familiares, professora encontrou na costura uma oportunidade de recomeçar e recuperar lembranças do pai alfaiate.

Uma encomenda de sacos-mochila fez Zózima Augusta Lopes lembrar do pai alfaiate. Antes desse pedido, a professora já havia mudado de Cuiabá para Americana, no interior de São Paulo, depois de perder a mãe e, três meses mais tarde, o irmão durante a pandemia. Perto dos filhos, procurava reorganizar uma vida marcada pelo luto e pela solidão. Personalizar canecas foi sua primeira tentativa de criar uma atividade própria; aprender a costurar ampliou o caminho. Como uma profissão observada na infância voltou a fazer parte de seus dias?

Encomenda de sacos-mochila despertou lembranças do pai que trabalhava como alfaiate.
Encomenda de sacos-mochila despertou lembranças do pai que trabalhava como alfaiate.Imagem gerada por inteligência artificial

Que mudanças levaram Zózima a Americana?

Nascida no interior de Mato Grosso, Zózima construiu carreira como professora de português e espanhol. Seus filhos se mudaram para Americana, enquanto ela permaneceu por algum tempo em Cuiabá. A distância ficou mais difícil depois das perdas na família. Sua mãe morreu durante a pandemia, e o irmão, uma referência afetiva importante para ela, morreu três meses depois.

A mudança para perto dos filhos não eliminou automaticamente a sensação de isolamento. Recomeçar em outra cidade envolve criar rotina, relações e uma forma de ocupar o tempo. A história não precisa transformar o luto em uma etapa simples, superada por um negócio. Foi nesse contexto, ainda em adaptação, que Zózima começou a experimentar possibilidades de trabalho diferentes da sala de aula.

Como surgiram as primeiras encomendas?

Um sobrinho que personalizava canecas serviu de inspiração para a primeira tentativa. Zózima entrou nessa atividade e passou a atender pedidos. A personalização oferecia uma forma concreta de produzir e vender, mas cada encomenda também trazia escolhas sobre materiais, preço e entrega. A notícia não fornece uma contagem de vendas ou renda inicial, por isso é melhor acompanhar a sequência de decisões do que atribuir um sucesso imediato.

Uma solicitação de sacos-mochila abriu outra possibilidade. Comprar as peças prontas aumentaria o custo; se aprendesse a fazê-las, ela poderia controlar melhor essa etapa. A lógica financeira a levou a procurar costura. A questão prática se uniu à lembrança do pai, que trabalhava como alfaiate, e tornou a nova habilidade mais do que uma simples maneira de cumprir um pedido.

Aprender uma nova profissão ajudou Zózima a reconstruir sua rotina.
Aprender uma nova profissão ajudou Zózima a reconstruir sua rotina.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a profissão do pai teve tanto peso?

Zózima recordou o trabalho do pai quando percebeu que poderia fabricar as peças encomendadas. Ela procurou um curso de costura no Centro da Universidade do Conhecimento de Americana, conhecido como CUCA. Aprender pontos, cortes e montagem trouxe lembranças da infância, mas também exigiu prática presente. Memória afetiva não substitui formação técnica; as duas dimensões se encontraram na decisão de estudar.

Um ateliê próprio e seus custos de organização mostram como transformar habilidade manual em negócio depende de planejamento. No caso de Zózima, o curso respondia primeiro a uma encomenda específica e ao desejo de reduzir gastos. Não há informação de que ela tenha aberto um ateliê independente; o paralelo serve para entender o trabalho por trás de peças feitas sob pedido.

O que ela passou a produzir?

Em 2026, a atividade incluía canecas, camisetas, bolsas, bonés e outros itens personalizados. Atender empresas ampliava os tipos de encomenda e exigia adaptar os produtos a diferentes clientes. A costura abriu possibilidades que a personalização de canecas, sozinha, não oferecia. Ainda assim, a notícia não publica faturamento, número de empregados ou uma lista de contratos que permita medir o porte do empreendimento.

O relato sobre a trajetória de Zózima também registra sua participação no Impulsiona Artesanato, programa do Sebrae-SP. Capacitação e contato com outras experiências podem ajudar na gestão, mas não são garantia automática de renda. O dado concreto é que ela buscou aprender tanto uma técnica produtiva quanto maneiras de organizar a atividade.

O artesanato apagou a carreira de professora?

A docência faz parte da história de Zózima, mesmo quando o foco está nas novas peças. Ensinar português e espanhol por anos significou construir um repertório de comunicação e trabalho que não desapareceu na mudança de cidade. A matéria de origem apresenta a costura como reinvenção, não como prova de que ela deixou de ser professora em todos os sentidos.

A ordem dos acontecimentos importa. Primeiro vieram as perdas, a mudança e a dificuldade de adaptação; depois, a experiência com canecas, a encomenda das mochilas e o curso. Uma peça pronta esconde esse tempo de tentativa. Contar a trajetória sem atalhos evita sugerir que empreender resolve sozinho a dor pela morte de pessoas próximas.

O que esse recomeço mostra?

O pedido de sacos-mochila encontrou uma mulher que precisava calcular custos e, ao mesmo tempo, reconheceu no trabalho uma ponte com o pai. Zózima procurou treinamento, diversificou produtos e passou a participar de um programa de apoio ao artesanato. São passos verificáveis. Não é necessário acrescentar uma cifra de vendas ou uma declaração inventada para perceber o alcance pessoal dessa escolha.

Americana passou a ser o lugar de convivência com os filhos e de construção de uma rotina nova. Entre a língua que ensinava e os tecidos que aprendeu a costurar, Zózima reorganizou habilidades sem apagar a própria história. A profissão do pai não ofereceu uma solução pronta; ofereceu um ponto de partida para aprender, produzir e continuar em movimento depois de uma sequência difícil de perdas.