Seu cachorro consegue perceber que você está estressada pelo cheiro e isso pode até mudar a forma como ele toma decisões
Cães conseguem perceber o cheiro do estresse humano no suor e na respiração, e isso pode deixá-los mais cautelosos.
Você não precisa levantar a voz nem fazer um movimento brusco para o cachorro perceber que algo mudou. Um estudo da Universidade de Bristol mostrou que o cheiro do estresse humano, presente em amostras de suor e respiração, foi suficiente para deixar cães mais cautelosos diante de uma situação ambígua, mesmo quando os animais não conheciam as pessoas que forneceram aquele odor.

Como os pesquisadores testaram o cheiro do estresse?
A equipe reuniu 18 cães e coletou amostras de suor e respiração de três voluntários humanos. Em uma sessão, os participantes foram submetidos a uma tarefa estressante de aritmética; em outra, assistiram a conteúdos relaxantes. Os cães não viram essas pessoas durante o experimento, por isso a pista principal disponível era olfativa.
Antes do teste, os animais aprenderam que uma tigela colocada em um ponto do ambiente sempre trazia comida e outra posição não trazia recompensa. Depois, os cientistas apresentaram tigelas em locais intermediários, deliberadamente ambíguos, para medir se o cão correria esperando algo bom ou se se aproximaria com mais cautela.

O que mudou quando os cães sentiram o odor de uma pessoa estressada?
Diante do cheiro produzido durante a situação de estresse, os cães se aproximaram mais devagar da tigela ambígua localizada perto do ponto em que não havia comida. Os pesquisadores interpretaram essa resposta como uma expectativa mais cautelosa ou “pessimista” sobre o resultado daquela escolha.
O efeito não precisa ser traduzido como “o cachorro ficou estressado exatamente igual ao humano”. O que o experimento mostra é algo mais preciso: um sinal químico humano alterou a tomada de decisão do animal. A pesquisadora Zoe Parr-Cortes e colegas publicaram os resultados em 2024 na revista Scientific Reports.
O cachorro precisa conhecer a pessoa para perceber esse sinal?
Esse é um dos detalhes mais curiosos. As amostras vieram de pessoas desconhecidas dos cães, o que reduz a explicação de que eles simplesmente reconheceram o cheiro emocional do próprio tutor. Suor e respiração carregam compostos voláteis capazes de mudar conforme o estado fisiológico, e o olfato canino é especialmente sensível a esse tipo de informação.
O resultado ajuda a explicar por que o cheiro do tutor pode ser apenas uma parte de um universo olfativo muito maior. No estudo, os pesquisadores controlaram a situação para isolar o odor e observar o efeito sobre as escolhas dos cães:
- As amostras combinavam suor das axilas e respiração coletados após uma condição estressante ou relaxante.
- Os cães não tinham contato visual com os doadores das amostras durante a tarefa.
- Dezoito animais participaram dos testes de aprendizagem e de julgamento das posições ambíguas.
- O odor de estresse reduziu a velocidade de aproximação em uma das posições ambíguas, sinal de maior cautela.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Jornalismo TV Cultura que fala sobre a pesquisa britânica que mostrou como cães percebem o odor do estresse humano:
Isso significa que seu estresse sempre vai deixar o cachorro ansioso?
Não. O estudo avaliou uma tarefa específica e uma resposta comportamental mensurável, não todos os efeitos possíveis da convivência cotidiana. Cães também usam voz, postura, rotina, expressão e experiência anterior para interpretar pessoas. Um odor isolado pode influenciar uma decisão sem determinar o estado emocional completo do animal.
Ainda assim, a pesquisa oferece uma razão prática para pensar em ambientes como clínicas, abrigos e treinamentos. Se o cheiro de um humano tenso pode alterar a expectativa de um cão, o estado emocional das pessoas que manuseiam o animal passa a ser mais uma variável relevante em situações que já podem ser desafiadoras.
O que essa descoberta muda na forma de olhar para o olfato canino?
Ela mostra que o nariz do cachorro não serve apenas para localizar comida, reconhecer pessoas ou seguir rastros. O animal também capta pistas químicas produzidas pelo nosso próprio corpo, inclusive alterações associadas ao estresse. Para nós, esse cheiro pode ser imperceptível; para eles, pode participar da leitura do ambiente.
Da próxima vez que seu cão parecer mais hesitante quando você está sob pressão, não é preciso concluir que ele “leu sua mente”. A explicação pode ser ainda mais interessante: parte da sua tensão pode estar literalmente no ar, misturada a sinais que o olfato canino consegue perceber muito antes de você dizer qualquer coisa.