Svalbard tem 2,5 mil habitantes e cerca de 3 mil ursos-polares. Governos de todo o mundo acreditam que é o local perfeito para guardar as sementes do planeta

A localização combina isolamento, estabilidade geopolítica e frio natural.

Svalbard, arquipélago norueguês no Alto Ártico, reúne pouco mais de 2,5 mil moradores nos assentamentos de Longyearbyen e Ny-Ålesund e fica no território percorrido pela população de ursos-polares do Mar de Barents. É nesse cenário de permafrost, montanhas e frio extremo que funciona o Cofre Global de Sementes, criado para manter cópias de segurança da diversidade agrícola conservada por bancos genéticos de diferentes partes do planeta.

Essa é a imagem que tornou a instalação famosa, mas sua função cotidiana é menos cinematográfica.
Essa é a imagem que tornou a instalação famosa, mas sua função cotidiana é menos cinematográfica. - Imagem gerada por IA

Svalbard realmente possui mais ursos-polares do que habitantes?

A comparação exige uma correção importante. Os dados de 2026 contabilizam 2.512 pessoas em Longyearbyen e Ny-Ålesund, enquanto a conhecida estimativa de aproximadamente 3 mil ursos não corresponde a animais vivendo permanentemente dentro de Svalbard. Ela se refere à população do Mar de Barents, compartilhada entre o arquipélago norueguês, o gelo marinho e áreas do Ártico russo.

O Instituto Polar Norueguês estimou essa população em cerca de 3 mil indivíduos em 2004, com intervalo calculado entre 1.900 e 3.600 animais. Pesquisas indicaram que aproximadamente 300 permaneciam nas proximidades de Svalbard durante todo o ano, enquanto muitos outros acompanhavam o gelo e podiam migrar até a Terra de Francisco José, na Rússia. Portanto, dizer simplesmente que existem “3 mil ursos em Svalbard” exagera o número local.

  • Longyearbyen e Ny-Ålesund tinham 2.512 habitantes no início de 2026;
  • a população de ursos pertence à região do Mar de Barents;
  • os animais percorrem grandes distâncias acompanhando o gelo marinho;
  • alguns permanecem próximos ao arquipélago durante todo o ano;
  • Svalbard continua sendo uma das áreas importantes para reprodução da espécie.

Por que construíram o Cofre Global de Sementes justamente ali?

A localização combina isolamento, estabilidade geopolítica e frio natural. O Cofre Global de Sementes de Svalbard foi escavado a mais de 100 metros dentro de uma montanha de rocha sólida e funciona cercado pelo permafrost. As câmaras são artificialmente mantidas a -18 °C, enquanto a própria montanha permanece abaixo de zero e ajuda a conservar o material por mais tempo caso o sistema de refrigeração deixe de funcionar.

O cofre foi realmente construído para sobreviver ao fim do mundo?

Essa é a imagem que tornou a instalação famosa, mas sua função cotidiana é menos cinematográfica. O depósito serve principalmente como uma cópia de segurança para bancos de sementes que podem perder coleções por guerras, desastres naturais, falhas de gestão, mudanças políticas ou outros acontecimentos locais. Uma catástrofe global também está entre os cenários possíveis, mas não é a única razão para sua existência.

Cada instituição continua proprietária do material enviado. As caixas permanecem fechadas sob um sistema semelhante ao de um cofre bancário: somente o banco genético que depositou determinada amostra pode solicitar sua devolução. A instalação oferece gratuitamente esse armazenamento de longo prazo às coleções qualificadas.

  • sementes são secas antes do armazenamento;
  • o material é acondicionado em embalagens herméticas;
  • as câmaras permanecem a aproximadamente -18 °C;
  • os depositantes mantêm a propriedade de suas sementes;
  • a capacidade total projetada chega a 4,5 milhões de amostras.

    Essa é a imagem que tornou a instalação famosa, mas sua função cotidiana é menos cinematográfica.
    Essa é a imagem que tornou a instalação famosa, mas sua função cotidiana é menos cinematográfica. - Imagem gerada por IA

Quantas sementes do planeta já estão guardadas em Svalbard?

O acervo continua crescendo. Em junho de 2026, o cofre ultrapassou a marca de 1,4 milhão de amostras de sementes após receber mais de 15 mil novos depósitos de bancos genéticos da África, Ásia, Europa e Américas. O Brasil também participa desse sistema por meio da Embrapa, que enviou novas amostras na abertura realizada naquele mês.

Por que guardar sementes congeladas pode ser decisivo no futuro?

A diversidade agrícola funciona como uma biblioteca genética. Variedades diferentes de arroz, trigo, feijão, milho e outras culturas carregam características que podem ser úteis diante de doenças, secas, mudanças de temperatura e novas condições de cultivo. Quando uma variedade desaparece completamente de uma coleção, parte dessas possibilidades também pode ser perdida.

É por isso que aquele pequeno portal de concreto no Ártico protege algo muito maior do que sua aparência sugere. No interior de uma montanha cercada por neve e permafrost, milhões de sementes permanecem congeladas como cópias de segurança da agricultura mundial. O contraste entre poucos moradores, ursos-polares percorrendo a região e caixas vindas de bancos genéticos de vários continentes tornou Svalbard um dos lugares mais incomuns já escolhidos para proteger parte do futuro alimentar do planeta.