Trabalhadores reformavam o “castelo” do Smithsonian quando abriram a rua e encontraram uma sala de tijolos fechada havia mais de 120 anos

Uma cisterna de tijolos de 1847, esquecida por mais de um século, reapareceu durante a reforma do histórico Castelo do Smithsonian.

Durante a reforma do Smithsonian Institution Building, o famoso “Castelo” de Washington, uma escavação sob a rua abriu acesso a algo que havia desaparecido até da memória institucional: uma câmara cilíndrica de tijolos construída em 1847 para armazenar água da chuva. Ela estava cerca de 4,5 pés abaixo da Jefferson Drive e permaneceu esquecida por mais de um século, embora fizesse parte da infraestrutura original do prédio.

A estrutura foi localizada em agosto de 2024 durante escavações do projeto Revitalize Castle, cerca de 45 pés a leste da entrada coberta do edifício.
A estrutura foi localizada em agosto de 2024 durante escavações do projeto Revitalize Castle, cerca de 45 pés a leste da entrada coberta do edifício.Imagem gerada por inteligência artificial

Como uma sala de tijolos apareceu embaixo da rua?

A estrutura foi localizada em agosto de 2024 durante escavações do projeto Revitalize Castle, cerca de 45 pés a leste da entrada coberta do edifício. A abertura levava a um cilindro subterrâneo com aproximadamente nove pés de diâmetro e até 30 pés de profundidade. Para uma equipe trabalhando com novas redes e instalações, encontrar um vazio desse tamanho sob a via virou imediatamente uma questão arqueológica e de segurança.

O detalhe mais curioso é que não se tratava de uma construção desconhecida em sua época. Pesquisa nos arquivos mostrou que três cisternas subterrâneas foram construídas junto com o Castelo por volta de 1847. Com o passar das décadas, mudanças na infraestrutura fizeram esse conhecimento se perder, e a existência da câmara só foi recuperada depois que o próprio canteiro de obras a encontrou.

Escavação sob a rua encontrou câmara subterrânea intacta feita de alvenaria.
Escavação sob a rua encontrou câmara subterrânea intacta feita de alvenaria. - Créditos: Imagem criada por IA.

Para que o Smithsonian precisava de uma cisterna tão grande?

Quando o edifício foi planejado, Washington ainda não oferecia ao local a infraestrutura pública que hoje parece básica. O Castelo operava com um sistema relativamente autônomo de água e esgoto. As cisternas enterradas recebiam o excesso da água da chuva coletada em reservatórios instalados nos telhados das alas leste e oeste e ajudavam a abastecer necessidades internas.

Esse sistema atendia inclusive banheiros do prédio até a ligação com a rede pública de água de Washington, em 1865. A câmara, portanto, não era um espaço cerimonial ou secreto. Era uma peça de engenharia utilitária, feita para funcionar sem chamar atenção. Quando novas tubulações assumiram sua tarefa, ela perdeu importância e acabou sendo fechada e esquecida.

Como os pesquisadores reconstruíram a história da câmara?

A identificação veio da combinação entre observação do objeto, documentos históricos e tecnologias de registro. O Smithsonian fotografou a cisterna, produziu imagens em 360 graus e realizou escaneamento a laser para criar documentação tridimensional antes das intervenções necessárias. O interior continha cerca de 15 pés de solo e entulho, mas não revelou um conjunto importante de artefatos.

Os detalhes conhecidos hoje permitem acompanhar a trajetória da estrutura:

  • Três cisternas subterrâneas foram construídas por volta de 1847 como parte do sistema original do Castelo.
  • A câmara descoberta mede cerca de nove pés de diâmetro e pode chegar a 30 pés de profundidade.
  • Em 1857, preocupações com a deterioração das antigas coberturas de madeira levaram ao uso de abóbadas de tijolos com argamassa.
  • O Castelo foi conectado à rede pública de água em 1865, reduzindo a importância do sistema autônomo.
  • Documentos, fotografias e escaneamento a laser permitiram registrar a estrutura antes de ela ser preenchida por segurança.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Smithsonian Folklife que fala sobre a restauração do Smithsonian Castle, obra durante a qual a cisterna histórica foi descoberta:

Por que a cisterna precisou ser preenchida novamente?

A descoberta trouxe um problema prático: havia um grande vazio subterrâneo sob uma via usada por veículos e pedestres, e a integridade estrutural da cisterna não era conhecida. Depois da avaliação conjunta do Smithsonian e do National Park Service, a câmara foi documentada e preenchida. Uma parte também precisou ser removida por conflito com novas linhas de utilidades e telecomunicações.

Isso não significa que a descoberta foi apagada. Tijolos retirados foram preservados para uso em uma futura exposição externa, e o registro tridimensional mantém a geometria da estrutura documentada. O Smithsonian também pretende usar radar de penetração no solo ou métodos semelhantes para tentar localizar outra cisterna histórica cuja posição exata continua desconhecida.

Como uma estrutura inteira consegue simplesmente desaparecer da memória?

Infraestruturas utilitárias têm uma característica ingrata para a memória urbana: quando deixam de ser necessárias, podem ser tampadas, cobertas por novas ruas e substituídas por sistemas mais modernos. Mapas deixam de destacá-las, funcionários mudam e obras posteriores transformam o terreno. Em poucas gerações, uma construção que já foi essencial pode virar um vazio sem identificação sob o pavimento.

A cisterna do Smithsonian mostra uma arqueologia feita de coisas que funcionavam justamente porque quase ninguém precisava vê-las. Não havia ouro, sepultamento ou passagem secreta, mas uma sala inteira dedicada à água da chuva. Ao reaparecer durante outra modernização, ela revelou como uma cidade pode esquecer sua própria infraestrutura e como arquivos, escaneamento e obra de engenharia se unem para reconstruir essa memória.