Um adolescente foi enterrado com 4 mil peças de ouro, mas o DNA revelou que sua maior riqueza não estava no traje, mas sim na família em que nasceu
Mais de 4 mil peças de ouro transformaram um adolescente enterrado há cerca de 2.500 anos em símbolo nacional do Cazaquistão.
Mais de 4 mil peças de ouro transformaram um adolescente enterrado há cerca de 2.500 anos em símbolo nacional do Cazaquistão. Agora, o primeiro estudo genômico do chamado Homem Dourado revela algo ainda mais valioso: os povos nômades citas eram comandados por famílias de elite que transmitiam poder e prestígio entre gerações.

Quem era o Homem Dourado do Cazaquistão?
O túmulo foi localizado em 1969, quando trabalhadores construíam uma garagem perto de Issyk, no sudeste do Cazaquistão. Embora parte do grande kurgan tivesse sido saqueada, uma câmara lateral permaneceu intacta. Dentro dela, arqueólogos encontraram o esqueleto de um jovem cercado por armas, objetos cerimoniais e milhares de ornamentos de ouro.
As mais de 4 mil peças formavam um traje elaborado e um cocar com cerca de 70 centímetros de altura, decorado com figuras de animais. Também havia uma tigela de prata com uma inscrição ainda não decifrada. A riqueza do sepultamento fez o jovem ganhar o nome de Homem Dourado e se tornar uma das imagens mais conhecidas do Cazaquistão.

O DNA confirmou que o jovem era do sexo masculino?
Durante décadas, o sexo biológico do indivíduo não pôde ser estabelecido com segurança apenas pela análise dos ossos. Um estudo publicado em 2026 na revista Science Advances apresentou os primeiros dados genômicos do Homem Dourado. Mesmo com uma amostra de baixa cobertura, os resultados indicaram maior probabilidade de que o jovem fosse geneticamente masculino.
A análise também reforçou que ele morreu com aproximadamente 17 anos, idade incompatível com uma longa trajetória de conquistas pessoais. Para a antropóloga genética Ainash Childebayeva, esse dado sugere que sua posição social já havia sido herdada. Nenhum parentesco direto, porém, foi identificado entre ele e os demais indivíduos examinados.
O estudo revelou dinastias entre os povos citas
A equipe analisou o DNA de 85 indivíduos da Idade do Ferro encontrados em 20 sítios arqueológicos da Eurásia Central. O grupo reunia 38 pessoas enterradas como integrantes da elite e 47 indivíduos de sepultamentos mais simples, datados entre 900 e 200 antes da era comum. Os principais resultados foram:
- Elites eram 11 vezes mais propensas a ter parentesco entre si;
- Irmãos foram enterrados em diferentes áreas da estepe;
- Pais, filhos, avôs e netos receberam sepultamentos privilegiados;
- Crianças também foram colocadas em grandes túmulos monumentais;
- Mulheres representavam quase metade dos indivíduos da elite.
Segundo Ayshin Ghalichi, primeira autora da pesquisa, a concentração de parentes entre os túmulos mais ricos indica a existência de dinastias familiares. A descoberta mostra que o poder não dependia apenas de habilidade militar ou liderança individual, mas podia ser transmitido dentro de linhagens que controlavam territórios e recursos.

As mulheres também ocupavam posições de poder
Quase metade dos integrantes da elite analisada era formada por mulheres, resultado que contraria a ideia de uma sociedade comandada exclusivamente por guerreiros homens. A descoberta também oferece apoio científico a relatos antigos, como os do historiador grego Heródoto, que descreveu mulheres citas atuando em posições de destaque e participando de combates.
Os pesquisadores encontraram relações familiares envolvendo homens e mulheres, incluindo um irmão e uma irmã enterrados com sinais de elevado prestígio. Isso sugere que o status podia circular por diferentes integrantes da família. Os grandes kurgans funcionariam, portanto, como monumentos destinados a preservar a memória e a autoridade dessas linhagens.
O ouro escondia uma história sobre poder hereditário
Os citas não deixaram registros escritos próprios, e grande parte do que se conhece sobre eles vem de autores estrangeiros e de sepultamentos espalhados pela estepe. O DNA oferece uma fonte independente para reconstruir essa sociedade, revelando que grupos considerados dispersos e nômades também mantinham centros de poder, hierarquias e redes familiares organizadas.
O Homem Dourado já impressionava pelo brilho de seu traje, mas sua juventude guarda a descoberta mais marcante. Ele provavelmente não precisou conquistar o lugar privilegiado que ocupou na morte, pois nasceu dentro de uma estrutura criada para preservar o poder. Revisitar esses achados agora é essencial para compreender como a desigualdade social atravessou gerações há 2.500 anos.