Um animal marinho pode atravessar milhares de quilômetros e retornar à mesma faixa de praia anos depois sem placas, mapas ou GPS
Pesquisadores acreditam que elas usam um conjunto de pistas ambientais.
As tartarugas marinhas conseguem realizar migrações impressionantes entre áreas de alimentação e praias de reprodução. Algumas percorrem milhares de quilômetros e, anos depois, retornam à mesma região costeira onde nasceram ou onde já fizeram ninhos anteriormente. Como conseguem fazer isso sem mapas, placas ou GPS ainda não está totalmente resolvido, mas uma das hipóteses mais fortes envolve a capacidade de perceber o campo magnético da Terra.

Como as tartarugas conseguem voltar para uma praia depois de tantos anos?
Pesquisadores acreditam que elas usam um conjunto de pistas ambientais. Correntes oceânicas, posição do Sol, características da costa e sinais químicos podem participar da navegação em diferentes momentos.
Mas uma das explicações mais estudadas é a chamada navegação geomagnética. O campo magnético terrestre varia ligeiramente de intensidade e inclinação conforme a posição no planeta. Para um animal capaz de detectar essas diferenças, cada região pode funcionar como uma espécie de assinatura geográfica.
O que significa dizer que a tartaruga possui um “mapa magnético”?
A ideia não é que o animal enxergue um mapa como uma pessoa. Em experimentos, tartarugas jovens expostas artificialmente a campos magnéticos semelhantes aos encontrados em diferentes partes de suas rotas mudaram a direção do nado de maneira compatível com a localização simulada.
Isso sugere que elas conseguem interpretar pelo menos alguns componentes do campo magnético como informação espacial. Na prática, seria como reconhecer que determinado conjunto de sinais corresponde a uma parte específica do oceano.
Entre as informações que podem ajudar estão:
- intensidade do campo magnético;
- ângulo de inclinação das linhas magnéticas;
- variações regionais desse campo;
- correntes oceânicas durante parte da viagem;
- pistas locais quando a costa já está próxima.
Elas realmente voltam exatamente ao lugar onde nasceram?
Em muitas espécies existe forte fidelidade natal, especialmente entre as fêmeas, que retornam à região onde nasceram para colocar ovos. Isso não significa necessariamente chegar ao mesmo metro de areia.
O retorno pode ocorrer a uma mesma praia, a um conjunto de praias próximas ou a uma faixa costeira relativamente pequena. Como o campo magnético da Terra muda lentamente ao longo dos anos, pesquisadores inclusive estudam se essas alterações ajudam a explicar pequenas mudanças nos locais escolhidos para nidificação.

Por que esse mecanismo seria tão útil no meio do oceano?
Em mar aberto existem poucos marcos visuais permanentes. Uma tartaruga pode passar semanas ou meses sem ver terra e ainda precisa manter uma direção geral durante a migração.
O campo magnético oferece uma vantagem importante porque está presente continuamente. Diferentemente de estrelas ou do Sol, ele não desaparece quando o céu está encoberto e pode fornecer informação mesmo durante mergulhos.
Isso não significa que seja a única ferramenta usada. A explicação mais provável é que as tartarugas combinem diferentes sentidos conforme a etapa da viagem.
A capacidade de voltar transforma o oceano em um mapa invisível
Quando uma tartaruga marinha atravessa milhares de quilômetros e retorna à mesma região costeira, ela mostra que orientação não depende necessariamente das referências que os humanos usam. O oceano possui sinais invisíveis para nós, mas potencialmente perceptíveis para esses animais.
A hipótese geomagnética ajuda a explicar parte desse feito, embora muitos detalhes ainda estejam sendo investigados. O que já está claro é que essas migrações não são movimentos aleatórios: mesmo depois de anos em mar aberto, as tartarugas conseguem transformar pistas naturais em uma rota de volta para uma faixa muito específica do litoral.