Um dente e fragmentos ósseos encontrados em uma escavação estão colocando em dúvida antigas ideias sobre o cristianismo
Proteínas preservadas no esmalte dentário revelaram que um sepultamento com correntes provavelmente pertencia a uma mulher.
As raízes de uma árvore quase apagaram uma história preservada havia cerca de 1.600 anos. Em um antigo mosteiro próximo a Jerusalém, arqueólogos encontraram ossos frágeis envolvidos por correntes e, entre poucos vestígios restantes, um único dente capaz de questionar uma antiga suposição sobre quem praticava formas rigorosas de devoção cristã.

O que havia no túmulo perto de Jerusalém?
Os restos foram encontrados em Khirbat el-Masani, aproximadamente três quilômetros a noroeste da Cidade Velha de Jerusalém. O complexo monástico funcionou entre cerca de 350 e 650 d.C., próximo a uma rota utilizada por peregrinos que viajavam em direção aos lugares sagrados da região.
Em uma das sepulturas, os pesquisadores localizaram o esqueleto muito deteriorado de uma pessoa enterrada com correntes de metal envolvendo o corpo. Pequenas placas metálicas e uma cruz também estavam próximas aos restos. O contexto indicava uma prática ascética associada à disciplina religiosa no período bizantino.

Por que os arqueólogos esperavam encontrar um homem?
O ascetismo reunia práticas de renúncia adotadas por pessoas que buscavam uma vida de maior dedicação espiritual. Algumas escolhiam o isolamento, o jejum ou o uso de objetos que limitavam os movimentos. Durante muito tempo, sepultamentos bizantinos com correntes foram interpretados principalmente como pertencentes a homens.
Por essa razão, a equipe inicialmente pretendia confirmar que os restos eram masculinos. A descoberta tomou outro rumo quando os ossos mais usados para estimar o sexo, como partes da pelve e do crânio, não puderam ser analisados. A ação das raízes e a passagem dos séculos haviam destruído grande parte do material.
Como um único dente revelou o provável sexo?
O que restou em condições adequadas para estudo foram três vértebras cervicais e um segundo pré-molar superior. As vértebras ajudaram a indicar que a pessoa era adulta, mas suas medidas não permitiram uma classificação segura. O dente, mais resistente à degradação, tornou-se a principal fonte de informação.
Em vez de depender do DNA, os cientistas utilizaram a proteômica do esmalte dentário, técnica que identifica proteínas preservadas no dente. O estudo foi publicado em 2025 no Journal of Archaeological Science Reports por pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência e da Autoridade de Antiguidades de Israel.

O que a análise encontrou no esmalte?
Os pesquisadores procuraram formas específicas da amelogenina, proteína envolvida na formação do esmalte. Certos fragmentos ligados ao cromossomo Y são esperados em indivíduos masculinos. A análise não detectou esses fragmentos, enquanto o perfil encontrado apresentou forte correspondência com a amostra feminina usada para comparação.
- O esmalte preservou proteínas mesmo após aproximadamente 1.600 anos.
- Nenhum fragmento exclusivo da amelogenina ligada ao cromossomo Y foi identificado.
- O perfil da amostra arqueológica coincidiu principalmente com o controle feminino.
- Alterações nas proteínas ajudaram a confirmar que o material era realmente antigo.
A equipe classificou os restos como muito provavelmente femininos, evitando apresentar o resultado como certeza absoluta. Alguns homens podem não produzir marcadores detectáveis ligados à amelogenina Y, e proteínas antigas também podem se degradar. Ainda assim, os diferentes testes realizados fortaleceram a interpretação de que o túmulo pertencia a uma mulher.
Por que essa descoberta muda a história?
A identificação sugere que mulheres também participaram de formas rigorosas de ascetismo no cristianismo antigo, contrariando a ideia de que esse tipo de devoção era exclusivamente masculino. Um único caso não revela quantas mulheres seguiram essas práticas, mas abre novas perguntas sobre sua presença nos mosteiros e nas comunidades religiosas.
A descoberta também mostra como interpretações históricas podem mudar quando novas tecnologias encontram vestígios quase invisíveis. É hora de olhar novamente para sepultamentos antigos e questionar certezas construídas com evidências incompletas. Às vezes, um único dente preserva a voz que séculos de história deixaram de ouvir.