Um erro de 200 anos apagou a identidade desta mulher enterrada perto de Stonehenge, até que o DNA contou outra história

Durante mais de 200 anos, um esqueleto enterrado perto de Stonehenge foi descrito como o de um homem forte e poderoso.

Durante mais de 200 anos, um esqueleto enterrado perto de Stonehenge foi descrito como o de um homem forte e poderoso. Agora, análises de DNA antigo revelam que a chamada “xamã de Upton Lovell” era uma mulher, possivelmente uma ourives experiente que dominava uma das tecnologias mais avançadas da Idade do Bronze.

A sepultura foi descoberta em 1801, na região de Upton Lovell, a cerca de 16 quilômetros de Stonehenge.
A sepultura foi descoberta em 1801, na região de Upton Lovell, a cerca de 16 quilômetros de Stonehenge. - Imagem gerada por IA

Como uma mulher foi confundida com um homem?

A sepultura foi descoberta em 1801, na região de Upton Lovell, a cerca de 16 quilômetros de Stonehenge. Na época, o arqueólogo William Cunnington observou a robustez dos ossos e concluiu que pertenciam a um homem. Essa interpretação atravessou dois séculos e influenciou pesquisas, reconstruções e exposições sobre o achado.

Os objetos funerários reforçaram a antiga suposição. Ferramentas, um machado de pedra e elementos associados a atividades cerimoniais foram automaticamente ligados ao universo masculino. A conclusão refletia mais as ideias modernas sobre gênero do que uma evidência científica capaz de determinar o sexo biológico da pessoa enterrada.

Suposições baseadas em estereótipos distorceram a classificação biológica de fósseis.
Suposições baseadas em estereótipos distorceram a classificação biológica de fósseis. - Imagem gerada por IA.

O que a análise de DNA revelou?

Pesquisadores do Instituto Francis Crick, em Londres, analisaram material genético retirado do crânio, de um dente e de um osso do dedo do pé. Todas as amostras apresentaram cromossomos XX, indicando que o esqueleto de aproximadamente 4 mil anos pertencia biologicamente a uma mulher.

Os resultados fazem parte da exposição We Go Way Back, dedicada ao modo como o DNA antigo está transformando o conhecimento sobre populações do passado. Segundo o Museu de Wiltshire, responsável pela coleção, as amostras produziram resultados consistentes e não mostraram sinais de que ossos de indivíduos diferentes estivessem misturados.

Quais objetos indicam que ela trabalhava com ouro?

Estudos recentes mostraram que os artefatos encontrados no túmulo formavam um conjunto especializado para trabalhar metais preciosos. Alguns instrumentos preservavam vestígios de ouro, indicando que a mulher poderia fabricar ou decorar peças com folhas extremamente finas desse material.

Entre os objetos associados ao trabalho artesanal estavam:

  • Ferramentas de pedra com vestígios de ouro;
  • Pedra de toque usada para avaliar a qualidade do metal;
  • Recipientes feitos com esponjas fossilizadas;
  • Instrumentos utilizados para alisar folhas de ouro;
  • Machado de pedra possivelmente reaproveitado como martelo.

    Conjunto especializado de ferramentas indica trabalho avançado com metais preciosos.
    Conjunto especializado de ferramentas indica trabalho avançado com metais preciosos. - Museu de Wiltshire

O corpo também guardava marcas do trabalho?

A mulher provavelmente tinha mais de 45 anos e uma constituição física robusta. Os pesquisadores identificaram sinais de osteoartrite no pulso direito, alteração compatível com movimentos repetitivos realizados durante muitos anos. A evidência fortalece a interpretação de que ela manipulava ferramentas regularmente.

Seu túmulo também continha ossos perfurados de animais, possivelmente costurados em uma veste cerimonial, além de objetos de alto valor simbólico. Por isso, ela pode ter acumulado funções religiosas e artesanais. Na Idade do Bronze, transformar minério em metal era um conhecimento raro, complexo e cercado de prestígio.

A descoberta muda o papel das mulheres na pré-história

O caso demonstra como antigas classificações podem ser influenciadas por estereótipos. Armas e ferramentas não provam automaticamente que um esqueleto era masculino, assim como joias não indicam necessariamente uma pessoa feminina. O DNA permite revisar essas ideias e construir retratos mais precisos das sociedades antigas.

Reexaminar coleções arqueológicas tornou-se urgente, pois outros esqueletos podem ter sido classificados de maneira equivocada. A ourives de Upton Lovell não representa apenas uma correção histórica. Ela mostra que mulheres dominaram conhecimentos valiosos, ocuparam posições de prestígio e deixaram marcas que a ciência finalmente começou a reconhecer.