Um navio cheio de explosivos repousa no Canal da Mancha desde 1946 depois de provocar um abalo de magnitude 4,5
Destroços espalhados perto da costa inglesa ainda desafiam especialistas por causa das munições desaparecidas e da corrosão submarina.
Uma carga de salvamento acionada no fundo do Canal da Mancha, em 1967, produziu um abalo equivalente a um terremoto de magnitude 4,5. A explosão veio do SS Kielce, cargueiro afundado duas décadas antes com bombas e munições, cujos destroços ainda permanecem espalhados perto da costa inglesa.

Como o SS Kielce foi parar no fundo do mar?
Construído nos Estados Unidos em 1943 com o nome Edgar Wakeman, o navio foi transferido ao governo polonês no exílio durante a Segunda Guerra Mundial. Rebatizado como SS Kielce, participou de comboios e continuou sendo usado no transporte de cargas após o conflito.
Em 1946, enquanto navegava de Southampton para Bremerhaven, o cargueiro colidiu com o vapor Lombardy e afundou perto de Folkestone, em uma área com aproximadamente 27 metros de profundidade. Toda a tripulação foi resgatada e nenhuma morte foi registrada no acidente.

O que havia dentro do navio naufragado?
Um relatório do governo britânico descreveu o Kielce como um navio com uma carga completa de bombas e munições. No entanto, o manifesto original nunca foi localizado, impedindo que investigadores determinassem com precisão os tipos, as quantidades e o peso total dos explosivos transportados.
O Registro Histórico do Patrimônio de Kent também menciona grandes bombas e outras munições no local. Essa falta de documentação ainda dificulta a avaliação do risco, pois não é possível comparar o material embarcado com aquilo que explodiu ou permaneceu sob os sedimentos.
Por que a operação de 1967 terminou em explosão?
Em 1966, uma empresa de salvamento recebeu a tarefa de reduzir a obstrução causada pelo naufrágio. Durante os trabalhos, cargas controladas foram usadas para romper partes do casco. As duas primeiras não provocaram consequências graves, mas a terceira atingiu as munições escondidas.
- A detonação ocorreu às 11h59 do dia 22 de julho de 1967.
- O abalo foi registrado por pelo menos 25 estações sísmicas.
- Telhados, chaminés e outras estruturas foram danificados em Folkestone.
- Nenhuma pessoa ficou ferida, segundo o relatório oficial.
O sinal sísmico foi detectado a milhares de quilômetros e recebeu magnitude aproximada de 4,5. Apesar de relatos posteriores sobre uma onda gigantesca, o documento oficial estimou que a elevação da água não passou de cerca de 60 centímetros, pois grande parte da energia atravessou o fundo marinho.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Silent Fleet dando mais informações e curiosidades obre o navio naufragado SS Kielce.
Como a explosão transformou o leito do Canal?
Um levantamento realizado após o incidente encontrou uma cratera de aproximadamente 47 metros de comprimento, 20 metros de largura e 6 metros de profundidade. Partes do navio foram lançadas por uma área extensa, fazendo com que o Kielce deixasse de existir como um casco reconhecível e relativamente unido.
O relatório britânico comparou as dimensões da cratera com experimentos de explosões subaquáticas. A análise não determinou quanto da carga detonou, mas revelou a grande quantidade de energia transferida ao solo, explicando por que o impacto foi percebido como um terremoto em várias regiões.
Por que o naufrágio ainda preocupa décadas depois?
Estudos do University College London citam o Kielce como exemplo da dificuldade de prever riscos em naufrágios com munições. A corrosão, o deslocamento dos destroços e o acúmulo de sedimentos tornam a inspeção complexa, enquanto qualquer intervenção pode perturbar explosivos cuja condição permanece desconhecida.
O episódio mostra que o tempo não torna automaticamente uma munição submersa inofensiva. Mesmo após oito décadas, o SS Kielce continua sendo um alerta sobre os vestígios perigosos deixados pelas guerras. Conhecer e monitorar esses locais é urgente para evitar que outra operação repita o impacto de 1967.