Um objeto ficou quase 160 anos catalogado desde uma escavação vitoriana até exames revelarem que era um colar feito com dente de foca há 15 mil anos
Um dente achado em 1867 foi reavaliado quase 160 anos depois e revelou ser um pingente de foca usado há cerca de 15 mil anos.
Nem toda descoberta arqueológica exige uma nova escavação. Às vezes, basta voltar a uma gaveta e perceber que a etiqueta não combina com o objeto. Foi o que aconteceu com um dente encontrado em Kents Cavern, na Inglaterra, em 1867: quase 160 anos depois, uma investigação revelou um pingente feito de dente de foca, usado há cerca de 15 mil anos.

Por que o objeto passou tanto tempo mal identificado?
O naturalista e geólogo William Pengelly encontrou a peça durante suas escavações em Kents Cavern, em Torquay. Ao longo do tempo, o dente foi associado a animais terrestres, como texugo ou lobo. A identificação parecia plausível até que comparações anatômicas mais cuidadosas mostraram que ela não se sustentava.
Simon Parfitt, do Instituto de Arqueologia da University College London e associado ao Natural History Museum, retomou o problema. A comparação com exemplares da coleção de mamíferos marinhos permitiu reconhecer um pré-molar de foca-cinzenta, Halichoerus grypus. O estudo foi publicado em 2026 na revista Quaternary Science Reviews.

Como os exames revelaram um pingente?
A equipe utilizou microscopia, modelos tridimensionais e microtomografia para examinar a peça sem destruí-la. A raiz havia sido afinada e perfurada, trabalho compatível com preparação para suspensão. O desgaste na região do furo indicava contato repetido com um cordão ou material semelhante.
A superfície lisa e polida também sugere uso frequente. Isso sustenta a interpretação como adorno pessoal, mas é importante usar o nome correto: o achado é um pingente. Não foi recuperado um colar completo com cordão e demais componentes, mesmo que a peça provavelmente tenha sido usada junto ao pescoço.
De onde vem a estimativa de 15 mil anos?
A fragilidade e a raridade do dente impediram a retirada de amostras para datação por radiocarbono. A idade aproximada se apoia no contexto arqueológico e nas comparações com materiais do período. Os registros cuidadosos de Pengelly continuam úteis justamente porque documentaram onde os achados foram recuperados.
Os exames atuais responderam a perguntas diferentes daquelas que uma datação direta responderia. Identificaram o animal, o trabalho humano e os vestígios de uso. Manter essas evidências separadas evita apresentar como resultado de laboratório uma idade obtida por contexto.
- A anatomia identifica o dente como pertencente a uma foca-cinzenta.
- A perfuração e o desgaste sustentam a interpretação como pingente.
- A idade aproximada depende do contexto, sem radiocarbono direto da peça.
O pingente faz parte de uma história humana muito maior preservada naquela caverna. O canal do YouTube Kents Cavern apresenta o cenário e os vestígios dos habitantes da Idade da Pedra:
Como um dente marinho chegou tão longe da costa?
Hoje, Torquay está à beira-mar. No fim da Era do Gelo, porém, o nível do mar era mais baixo e a costa podia ficar a mais de cem quilômetros da caverna, talvez até 125 quilômetros. O dente precisou percorrer uma distância considerável antes de chegar ao local onde foi encontrado.
Expedições, deslocamentos sazonais e trocas são explicações possíveis, não uma rota comercial já demonstrada. Silvia Bello, do Natural History Museum, destaca o valor do adorno para investigar práticas simbólicas. Claire Lucas, do British Museum, ressalta perguntas ainda abertas, como saber se quem o fabricou foi também quem o levou até a caverna.
Quantas descobertas ainda estão nas coleções?
As análises de objetos antigos podem transformar materiais conhecidos em evidências novas quando surgem outras técnicas ou comparações. Neste caso, ampliar a busca de animais terrestres para mamíferos marinhos resolveu uma identificação que havia permanecido incerta durante gerações.
O pingente não revela o nome de seu dono nem o significado exato que carregava. Revela habilidade, uso prolongado e uma conexão material com uma costa distante. A gaveta não guardava uma história encerrada; guardava uma pergunta que os pesquisadores finalmente aprenderam a fazer de outro modo.