Um pedreiro de 64 anos denuncia a contradição da construção: “Pediram-me para falar inglês com os tijolos”.

José María continua trabalhando em uma obra em Madri e acompanha de perto as mudanças do setor.

José María tem 64 anos, começou a trabalhar na construção aos 14 e acumula quase meio século de experiência no ofício. Mesmo assim, ao se candidatar recentemente a uma vaga em uma obra na Espanha, recebeu uma exigência que considerou difícil de entender: pediram que soubesse inglês. A resposta veio em tom de ironia e acabou resumindo uma contradição do setor: “Não sabia que tinha que falar inglês com os tijolos”.

José María acredita que o salário inicial pesa bastante.
José María acredita que o salário inicial pesa bastante.Imagem gerada por inteligência artificial

Quase 50 anos de experiência e uma exigência inesperada

José María continua trabalhando em uma obra em Madri e acompanha de perto as mudanças do setor. Segundo ele, certa vez se candidatou a uma vaga divulgada por uma prefeitura. Algumas semanas depois, recebeu a informação de que procuravam alguém que falasse inglês.

Para um profissional cuja experiência está diretamente ligada a levantar paredes, interpretar medidas, preparar argamassa e executar tarefas práticas de obra, o requisito pareceu desconectado da função. Foi nesse contexto que surgiu a frase que viralizou.

A construção precisa de trabalhadores, mas os profissionais estão envelhecendo

O caso chama atenção porque aparece justamente em um momento em que a construção espanhola enfrenta dificuldade para encontrar mão de obra qualificada. Apenas cerca de um em cada dez trabalhadores do setor tem menos de 30 anos, enquanto quase um quarto já passou dos 55. A estimativa citada na reportagem é que mais de 139 mil profissionais deixem o mercado de trabalho nos próximos cinco anos.

Na própria obra de José María, essa diferença entre gerações é visível. Ele afirma que há apenas um trabalhador de 28 anos e que os demais têm mais de 50.

Essa situação cria um problema duplo:

  • trabalhadores experientes se aproximam da aposentadoria;
  • poucos jovens entram para substituí-los;
  • empresas relatam dificuldade para preencher vagas;
  • alguns processos seletivos adicionam requisitos que nem sempre parecem ligados ao trabalho prático.

Por que menos jovens querem entrar no setor?

José María acredita que o salário inicial pesa bastante. Segundo ele, muitos jovens perguntam quanto vão receber antes de considerar uma carreira na construção e rejeitam vagas quando percebem que o valor não compensa um trabalho fisicamente exigente.

Dados citados na reportagem apontam que o salário médio anunciado para profissionais da construção na Espanha chegava a 28.567 euros anuais em 2026. Para quem começa como ajudante, porém, os valores podem ficar perto de 1.300 euros mensais em 14 pagamentos.

José María também compara seu poder de compra atual com o dos primeiros anos no setor. Para ele, mesmo após décadas de experiência, os salários não acompanharam de maneira suficiente o aumento das despesas.

José María acredita que o salário inicial pesa bastante.
José María acredita que o salário inicial pesa bastante.Imagem gerada por inteligência artificial

A experiência prática ainda é uma das principais competências da construção

Na construção, boa parte da qualificação é acumulada durante anos de trabalho. Saber preparar uma parede, identificar um problema de nivelamento ou antecipar dificuldades em determinada etapa da obra exige experiência que nem sempre aparece em um currículo tradicional.

Isso não significa que idiomas nunca sejam úteis. Em obras internacionais ou equipes com trabalhadores de diferentes países, falar inglês pode ser uma vantagem real. A contradição surge quando o idioma aparece como filtro automático para uma função em que ele não será efetivamente usado.

A frase sobre os tijolos expôs um problema maior do que uma vaga

O relato de José María ganhou repercussão porque coloca lado a lado duas realidades difíceis de conciliar. De um lado, empresas dizem que não conseguem encontrar trabalhadores suficientes. De outro, um pedreiro de 64 anos com quase cinco décadas de experiência encontra uma exigência que, segundo ele, pouco tem a ver com a execução do trabalho.

“Pediram-me para falar inglês com os tijolos” virou mais do que uma resposta bem-humorada. A frase resume a sensação de um profissional que viu o ofício mudar durante toda a vida e agora observa um setor que precisa desesperadamente de experiência, mas nem sempre organiza seus processos de contratação de acordo com aquilo que realmente faz falta dentro da obra.