Um pescador alemão introduziu milhares de alevinos de bagre no rio Ebro em 1974: 50 anos depois, o “titã da água doce” é o grande inimigo das águas espanholas
Considerado o maior peixe de água doce da Europa, o siluro pode atingir cerca de 2,5 metros e ultrapassar 100 quilos.
O siluro, peixe da espécie Silurus glanis, foi introduzido deliberadamente na bacia do rio Ebro em 1974 e encontrou condições favoráveis para se reproduzir. Meio século depois, esse grande predador ocupa rios e reservatórios espanhóis, altera cadeias alimentares e ameaça peixes, invertebrados e outros animais nativos.

Como o siluro chegou ao rio Ebro em 1974?
A introdução é atribuída ao biólogo e pescador alemão Roland Lorkowsky, que levou juvenis provenientes da região do Danúbio para a bacia do Ebro com o objetivo de criar uma nova atração para a pesca esportiva. O relato sobre a chegada do peixe ao reservatório de Mequinenza fala em milhares de alevinos.
O número inicial, porém, não é consensual. Registros técnicos e trabalhos sobre a expansão da espécie mencionam 32 juvenis introduzidos no rio Segre, integrante da bacia do Ebro. Apesar da divergência, há concordância sobre os principais pontos do episódio:
- A introdução ocorreu de forma intencional em 1974;
- Os peixes eram originários da região do Danúbio;
- O objetivo estava ligado à pesca esportiva;
- Novas transferências ajudaram a ampliar a distribuição;
- A espécie alcançou reservatórios e rios conectados ao Ebro.
Por que o peixe se espalhou tão rapidamente?
O Silurus glanis tolera águas profundas, turvas e com pouco oxigênio, características encontradas em muitos reservatórios e trechos lentos de rios. Depois de estabelecido, ele avança por cursos interligados, enquanto transferências ilegais para novos pontos de pesca aceleram sua chegada a outras bacias hidrográficas.
O que transforma o siluro em um “titã da água doce”?
Considerado o maior peixe de água doce da Europa, o siluro pode atingir cerca de 2,5 metros e ultrapassar 100 quilos. Seu corpo alongado, a boca larga e os barbilhões sensoriais permitem localizar alimento mesmo em ambientes com pouca luz e água barrenta.
A alimentação muda conforme o crescimento. Os exemplares jovens consomem plâncton e invertebrados, enquanto os adultos passam a capturar presas maiores, principalmente durante a noite e o crepúsculo. Entre os animais encontrados em sua dieta estão:
- Peixes de diferentes tamanhos;
- Crustáceos e outros invertebrados aquáticos;
- Anfíbios encontrados perto das margens;
- Aves aquáticas capturadas ocasionalmente;
- Pequenos mamíferos que se aproximam da água.

Considerado o maior peixe de água doce da Europa, o siluro pode atingir cerca de 2,5 metros e ultrapassar 100 quilos. - Imagem gerada por IA
Quais danos a espécie causa à fauna nativa?
Como espécie invasora, o siluro ocupa uma posição de grande predador em ambientes que não evoluíram com sua presença. A pressão sobre peixes e macroinvertebrados modifica a estrutura das comunidades aquáticas, aumenta a competição por alimento e pode agravar a situação de espécies nativas já afetadas por barragens, poluição e perda de habitat.
Por que controlar a invasão se tornou tão difícil?
A retirada é complexa em rios extensos e reservatórios conectados, pois exemplares escondidos em áreas profundas podem recolonizar os trechos controlados. O grande tamanho, a reprodução eficiente e a dificuldade de detectar populações pequenas também reduzem as chances de erradicação completa depois que o peixe se estabelece.
A prevenção de novas introduções tornou-se a principal ferramenta para proteger a biodiversidade dos rios espanhóis. As medidas incluem impedir o transporte de exemplares vivos, fiscalizar solturas ilegais, monitorar novas áreas e retirar peixes em pontos de alta densidade. A história iniciada em 1974 mostra como a liberação de poucos animais fora de sua área natural pode alterar uma bacia hidrográfica durante décadas.