Um predador de sete metros espreitava a Patagônia há 86 milhões de anos. Seu nome homenageia uma jovem cientista que ajudou a desenterrá-lo
A descoberta ganhou nome em memória de uma colega que não viu o fim.
A Patagônia acaba de acrescentar um novo personagem ao seu passado pré-histórico. Um dinossauro carnívoro de cerca de sete metros percorreu a região há 86 milhões de anos, durante o Cretáceo, armado com membros dianteiros fortes e grandes garras curvas. Batizado de Rinconraptor pipoae, o predador foi identificado a partir de ossos encontrados na província argentina de Neuquén.
O que o fóssil revelou aos pesquisadores?
O fóssil foi localizado em Cerro Overo, cerca de 50 quilômetros a sudoeste de Rincón de los Sauces, no norte da Patagônia. Os primeiros vestígios apareceram em 2016, mas a retirada ocorreu durante uma campanha realizada em novembro de 2019. O material estava concentrado em uma área de apenas quatro metros quadrados.
- Dez centros de vértebras da cauda;
- parte de um arco hemal, estrutura ligada às vértebras;
- a extremidade de um úmero esquerdo;
- parte de uma tíbia direita.
Um dinossauro reconhecido por detalhes nos ossos
O dinossauro não deixou um esqueleto completo. Ainda assim, características particulares do úmero e da tíbia permitiram separá-lo de outros megaraptorídeos. A posição de uma projeção no osso do braço e o formato de regiões da tíbia formam uma combinação anatômica que não havia sido registrada em outra espécie.
Os pesquisadores calcularam o comprimento de aproximadamente sete metros comparando as vértebras preservadas com as de animais aparentados. Outros restos encontrados na mesma área podem ter pertencido a indivíduos com mais de oito metros, sinal de que a Patagônia abrigava megaraptorídeos de diferentes portes.

Como a paleontologia reconstruiu esse caçador?
A paleontologia depende de comparações anatômicas minuciosas quando o esqueleto está incompleto. A descrição de Rinconraptor pipoae reuniu evidências que ajudam a reconhecer o animal e a investigar sua posição evolutiva. A análise destacou aspectos típicos dos megaraptorídeos:
- locomoção sobre duas pernas;
- braços alongados e musculosos;
- garras grandes nas mãos;
- ossos com cavidades de ar ligadas ao sistema respiratório.
Cretáceo tinha mais de um grande predador na região
O Cretáceo de Cerro Overo reunia tartarugas, crocodiliformes, ornitópodes, saurópodes titanossauros e diferentes terópodes. O novo fóssil confirma que megaraptorídeos conviviam com abelissaurídeos, carnívoros de crânio curto e braços bastante reduzidos. Ambos ocupavam posições elevadas na cadeia alimentar há cerca de 86 milhões de anos.
A paleontologia ainda não consegue afirmar se esses caçadores disputavam diretamente as mesmas presas. Diferenças corporais podem indicar estratégias distintas de caça ou uma divisão dos recursos disponíveis. As vértebras de Rinconraptor também reforçam uma possível proximidade evolutiva entre os megaraptores e os tiranossauroideos, hipótese que permanece em debate.

O nome preserva uma história além dos ossos
Rinconraptor combina uma referência a Rincón de los Sauces com o termo latino associado a ladrão. Já pipoae homenageia Laura Pipo, jovem pesquisadora que participou da escavação em 2019. Doutoranda e paleobotânica, ela estudava plantas antigas para compreender a vegetação e a alimentação dos herbívoros. Laura morreu de forma repentina em 2020, antes que o fóssil fosse preparado e analisado.
O reconhecimento científico eterniza sua participação no trabalho de campo e amplia o registro de animais que habitaram a Patagônia. Para o estudo do Cretáceo, Rinconraptor oferece uma peça concreta sobre a diversidade de grandes predadores, a anatomia de seus braços e a organização dos ecossistemas que existiam no sul da América do Sul.