Um prédio de escritórios seria demolido para dar lugar a uma torre de 32 andares, mas havia parte do centro político da Londres romana embaixo dele
Arqueólogos encontraram sob um prédio de Londres paredes monumentais da primeira basílica de Londinium, centro político da cidade romana.
O endereço 85 Gracechurch Street parecia pertencer ao futuro da região financeira de Londres: um prédio de escritórios seria substituído por uma torre de 32 andares. Antes que o redesenvolvimento avançasse, porém, arqueólogos abriram pequenos poços de teste no subsolo e encontraram paredes monumentais da primeira basílica de Londinium, parte do lugar onde decisões políticas e jurídicas eram tomadas há quase dois mil anos.

Como os arqueólogos encontraram a basílica sob o edifício moderno?
O Museum of London Archaeology, o MOLA, já sabia por pesquisas anteriores que o terreno ficava sobre a extremidade norte da primeira basílica romana. O que ninguém conseguia prever era quanto havia sobrevivido a construções romanas posteriores, fundações modernas, redes subterrâneas e séculos de transformação urbana. Por isso, a equipe abriu poços de teste em pontos calculados para interceptar possíveis paredes.
O resultado superou a expectativa. Segundo o MOLA, apareceram fundações e muros feitos de sílex, ragstone e telhas romanas. Em alguns trechos, as estruturas ultrapassavam 10 metros de comprimento, chegavam a cerca de um metro de largura e desciam até quatro metros. Não era um fragmento solto: partes substanciais do edifício continuavam preservadas sob o porão.

O que funcionava naquele lugar durante a Londres romana?
A basílica fazia parte do primeiro fórum de Londinium e concentrava funções políticas, judiciais, comerciais e sociais. O MOLA considera que ela foi construída no fim da década de 70 ou nos anos 80, possivelmente durante o governo de Agrícola, entre 78 e 84. O conjunto ocupava um ponto elevado da cidade e tinha dimensões próximas às de um campo de futebol.
A área identificada em Gracechurch Street pode corresponder ao tribunal, uma plataforma elevada dentro da basílica. Ali, magistrados e autoridades poderiam julgar disputas e tomar decisões sobre a administração da cidade. O contraste com uma villa romana rural é enorme: neste caso, o achado pertence ao próprio centro de poder da cidade.
Como os pesquisadores sabem que pode ser justamente o tribunal?
A interpretação não depende de uma placa dizendo “tribunal”. Arqueólogos cruzam a posição das paredes com plantas obtidas em escavações antigas, dimensões do fórum, sequência das fundações e conhecimento sobre a arquitetura cívica romana. É esse encaixe espacial que levou a equipe a considerar que os muros estão na zona onde ficava a plataforma destinada a magistrados e líderes.
As pistas que sustentam a leitura do sítio incluem:
- As paredes ocupam a extremidade conhecida da primeira basílica de Londinium.
- Fundações monumentais mostram que se tratava de um edifício público de grande porte.
- A posição coincide com a área interpretada como tribunal dentro da basílica.
- O conjunto fazia parte de um fórum usado para decisões políticas, justiça, comércio e vida pública.
- Novas escavações poderão revelar elementos internos que ainda não apareceram nos poços iniciais.

Por que a primeira basílica durou tão pouco?
Esse é um dos pontos que tornam o achado especialmente interessante. O primeiro fórum foi usado por um período relativamente curto. Cerca de 20 anos depois de sua construção, começou a surgir ao redor dele um segundo fórum muito maior, aproximadamente cinco vezes maior segundo o MOLA. Parte das estruturas antigas continuou funcionando durante a transição e depois foi demolida.
O crescimento rápido pode refletir a expansão e a importância de Londinium, mas detalhes sobre o interior da primeira basílica permanecem pouco conhecidos. É justamente por isso que os níveis preservados sob Gracechurch Street são valiosos: eles podem guardar pisos, acabamentos, fases construtivas e objetos capazes de mostrar como o primeiro centro administrativo foi usado antes de ser substituído.
O arranha-céu vai apagar novamente essas ruínas?
O plano apresentado pelo proprietário Hertshten Properties é o contrário. O projeto foi redesenhado para integrar as estruturas romanas a um espaço público de exposição, desenvolvido em parceria com o MOLA, o London Museum e a City of London Corporation. Se o empreendimento avançar, escavações mais amplas deverão preceder a construção e ampliar a documentação arqueológica.
A descoberta mostra por que arqueologia preventiva muda projetos modernos. O prédio que parecia apenas ocupar um lote financeiro estava literalmente apoiado sobre parte da primeira sala de decisões da Londres romana. Preservar esse nível permite que a nova torre não apenas cresça sobre a cidade antiga, mas revele ao visitante o palco político que permaneceu escondido sob seus escritórios.