Um tamanco de 1.800 anos revela como os romanos enfrentavam um perigo escondido nos pisos das termas
Um simples calçado de madeira preservado por quase dois milênios está ajudando arqueólogos a reconstruir um hábito surpreendentemente moderno
Um simples calçado de madeira preservado por quase dois milênios está ajudando arqueólogos a reconstruir um hábito surpreendentemente moderno da Roma Antiga. Encontrado no forte de Vindolanda, próximo à Muralha de Adriano, o objeto pode ser um dos chinelos de banho mais antigos do mundo, criado para enfrentar pisos quentes e escorregadios.

Como era o tamanco de banho romano?
Datado entre 140 e 180 d.C., o calçado possui uma plataforma de madeira e vestígios de uma tira superior de couro. Os romanos chamavam esse tipo de peça de sculponeae. A maioria dos exemplares conhecidos apresenta solas elevadas entre 2,5 e 5 centímetros, distância suficiente para reduzir o contato dos pés com superfícies aquecidas.
Alguns tamancos eram simples, enquanto outros recebiam padrões geométricos e até representações de dedos esculpidas na madeira. O formato lembra chinelos usados atualmente em vestiários, piscinas e áreas de banho, mas sua função principal provavelmente era proteger contra o calor intenso produzido pelo sistema de aquecimento das termas romanas.

Por que os pisos das termas ficavam tão quentes?
Segundo a English Heritage, os banhos romanos utilizavam o hipocausto, sistema no qual uma fornalha enviava ar quente para espaços existentes sob pisos elevados. A circulação aquecia salas mornas e quentes, além de alguns reservatórios de água. Como consequência, certas superfícies podiam ficar desconfortáveis ou perigosas para os pés descalços.
As termas também funcionavam como centros de convivência. Os frequentadores passavam por ambientes frios, mornos e quentes antes de retornar para um mergulho em água fria. Estudos históricos da instituição mostram que esses espaços reuniam exercícios, higiene, descanso e conversas, transformando o banho em uma atividade social importante no cotidiano romano.
O que torna Vindolanda tão importante?
Vindolanda foi uma fortaleza romana construída em Northumberland, no atual Reino Unido. Camadas profundas de lama com pouco oxigênio impediram a rápida decomposição de diversos materiais orgânicos. Essa condição rara permitiu que madeira, couro, tecidos e documentos sobrevivessem por séculos, oferecendo aos pesquisadores informações incomuns sobre a vida na fronteira do Império Romano.
De acordo com a arqueóloga Elizabeth Greene, da Western University, mais de 5 mil calçados romanos foram encontrados no sítio, incluindo cerca de 50 possíveis tamancos de banho. Entre as principais características analisadas pelos especialistas estão:
- Plataformas de madeira elevadas para afastar os pés do piso;
- Tiras de couro usadas para manter o calçado preso;
- Marcas de desgaste capazes de indicar a forma de uso;
- Decorações geométricas ou desenhos de dedos na superfície.

Condições raras do solo preservaram milhares de objetos orgânicos em Vindolanda. - The Vindolanda Trust
Este é realmente o chinelo de banho mais antigo?
A classificação ainda é debatida. Sandálias muito mais antigas foram encontradas no Egito e em outras regiões do Mediterrâneo, mas não existem evidências de que tenham sido produzidas especificamente para termas. Elizabeth Semmelhack, diretora e curadora do Museu do Calçado Bata, destaca que até os modelos etruscos com armações metálicas tinham outras finalidades.
Em 2025, arqueólogos encontraram dois calçados infantis com solas de madeira em Isarnodurum, sítio romano localizado na França e possivelmente anterior aos exemplares de Vindolanda. Caso estudos confirmem que eram usados em banhos, eles poderão assumir o recorde. Outra hipótese é que alguns tamancos servissem também como sobrecalçados contra lama, água ou neve.
Por que essa descoberta merece atenção agora?
O tamanco mostra que soluções aparentemente atuais já faziam parte da rotina de pessoas que viveram há quase dois mil anos. Ao adaptar madeira e couro para enfrentar calor e umidade, os romanos criaram um objeto funcional que aproxima o passado de hábitos reconhecíveis no presente. A peça está na exposição Unearthing Vindolanda, no Museu do Calçado Bata, em Toronto.
Observar e preservar descobertas como essa é urgente, pois materiais orgânicos antigos são raros e extremamente frágeis. Cada fragmento pode mudar interpretações sobre tecnologia, higiene e vida cotidiana. Conhecer esse patrimônio não significa apenas admirar uma curiosidade histórica, mas impedir que experiências humanas decisivas desapareçam antes de serem compreendidas.