Uma criatura quase invisível foi descoberta perto da antiga Ilha da Morte e pode esconder um dos venenos mais perigosos do mundo
Uma medusa quase transparente encontrada perto de uma antiga “Ilha da Morte” permaneceu escondida à vista da ciência.
Uma medusa quase transparente encontrada perto de uma antiga “Ilha da Morte” permaneceu escondida à vista da ciência. Análises anatômicas e genéticas revelaram que o animal pertence a uma espécie desconhecida de medusa-caixa, grupo famoso por reunir algumas das criaturas marinhas mais venenosas do planeta.

Onde a nova medusa-caixa foi descoberta?
Exemplares foram encontrados entre 2020 e 2021 nas águas costeiras próximas à ilha de Sentosa, em Singapura. O local era chamado anteriormente de Pulau Blakang Mati, expressão malaia associada à ideia de “ilha da morte atrás”. Essa denominação histórica inspirou o nome científico Chironex blakangmati.
A espécie foi apresentada em um estudo publicado em 15 de maio de 2026 no periódico científico Raffles Bulletin of Zoology. Conduzida por pesquisadores da Universidade Nacional de Singapura e da Universidade de Tohoku, no Japão, a investigação classificou o animal como a quarta espécie conhecida do gênero Chironex.

Como os cientistas confirmaram uma nova espécie?
Inicialmente, os pesquisadores acreditavam que os animais pertenciam à espécie Chironex yamaguchii, encontrada em Okinawa, no Japão. Cheryl Ames, coautora do estudo, comparou os exemplares de Singapura com uma amostra antiga da espécie japonesa e percebeu diferenças que não poderiam ser explicadas apenas pela idade ou pelo desenvolvimento.
A análise do DNA confirmou que as populações pertenciam a linhagens distintas. Os cientistas utilizaram sequências dos genes 16S rRNA e COI para reconstruir as relações evolutivas do grupo. Os resultados genéticos, combinados às características físicas, colocaram a C. blakangmati em um ramo próprio da árvore evolutiva.
Quais características diferenciam o animal?
A principal diferença está em estruturas localizadas na parte inferior do corpo em formato de sino. A nova espécie não apresenta canais que se prolongam das extremidades das abas perradiais, componentes que reforçam a musculatura utilizada durante a natação. A pesquisa também identificou outras características importantes:
- Sete tentáculos ligados a cada estrutura de sustentação;
- Canais internos alongados com extremidades pontiagudas;
- Oito tipos de células urticantes identificados preliminarmente;
- Sequências genéticas diferentes das demais espécies conhecidas.
Essas diferenças são relevantes porque animais do gênero Chironex possuem olhos complexos e musculatura forte. Ao contrário de muitas medusas transportadas passivamente pelas correntes, elas conseguem nadar ativamente e responder ao ambiente, comportamento que aumenta sua eficiência na localização e captura de presas.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Bestas Noturnas mostrando 10 segredos sobre a Medusa-caixa.
Outra espécie venenosa apareceu em Singapura
O estudo também registrou a presença de Chironex indrasaksajiae, conhecida como vespa-do-mar tailandesa, nos estreitos de Johor e Singapura. Antes da pesquisa, a espécie era associada principalmente à costa da Tailândia. A descoberta representa uma ampliação considerável de sua distribuição geográfica conhecida.
Ames afirmou que a distância em relação aos registros anteriores surpreendeu a equipe. Os pesquisadores ainda não sabem se a espécie chegou recentemente, se sua distribuição mudou ou se já vivia na região sem ter sido corretamente identificada. Segundo o artigo, ainda existem grandes lacunas sobre a diversidade e a sazonalidade das medusas-caixa.
Mapear essas medusas pode salvar vidas
Os tentáculos das medusas-caixa possuem nematocistos, células microscópicas capazes de injetar veneno quando entram em contato com a pele. Algumas espécies do gênero Chironex podem provocar dores intensas, alterações cardiovasculares e acidentes fatais, embora o potencial tóxico específico da nova espécie ainda precise ser investigado em detalhes.
Conhecer as áreas onde esses animais vivem é essencial para orientar monitoramentos, avisos em praias e protocolos de atendimento. A descoberta mostra que espécies perigosas podem circular muito além das regiões conhecidas. Investir em pesquisa e vigilância costeira agora pode evitar que encontros inesperados terminem em tragédia.