Uma escavação para abrir espaço a uma ferrovia encontrou duas esculturas romanas escondidas de cabeça para baixo dentro de um tanque de vinho

As esculturas apareceram no último dia da escavação e deixaram uma pergunta aberta sobre por que foram escondidas dentro de um antigo tanque.

Uma obra ferroviária moderna acabou abrindo uma janela inesperada para o mundo romano. Durante escavações preventivas feitas antes da construção de uma linha de alta velocidade em Israel, arqueólogos encontraram dois bustos de mármore com cerca de 1.700 anos escondidos de cabeça para baixo dentro de um antigo tanque de vinho. A descoberta ocorreu justamente no último dia de trabalho.

Os arqueólogos investigavam uma antiga villa próxima à costa do Mediterrâneo antes que a área fosse liberada para o avanço da ferrovia.
Os arqueólogos investigavam uma antiga villa próxima à costa do Mediterrâneo antes que a área fosse liberada para o avanço da ferrovia.Imagem gerada por inteligência artificial

Como as esculturas apareceram durante a obra ferroviária?

Os arqueólogos investigavam uma antiga villa próxima à costa do Mediterrâneo antes que a área fosse liberada para o avanço da ferrovia. Enquanto escavavam a região de uma instalação usada para produção ou armazenamento de vinho, algo diferente da cerâmica habitual começou a aparecer no solo.

O material era mármore. Aos poucos, a equipe revelou duas esculturas do tipo protome, representando cabeça e parte superior do corpo. Elas estavam viradas para baixo dentro de um tanque vazio e surpreenderam também pelo estado de conservação, apesar de terem permanecido enterradas durante séculos.

Escavações preventivas encontram esculturas clássicas preservadas no último dia de trabalho.
Escavações preventivas encontram esculturas clássicas preservadas no último dia de trabalho. - Créditos: Assaf Peretz e Yoli Schwartz / Autoridade de Antiguidades de Israel

O que torna os dois bustos tão incomuns?

As peças têm aproximadamente 1.700 anos, quase 60 centímetros de altura e cerca de 60 quilos cada. Uma delas mostra um homem de barba comprida, possivelmente um filósofo ou pensador. A identidade ainda não foi determinada, o que mantém aberta parte da investigação sobre quem aquelas figuras representavam.

A outra peça oferece uma pista mais intrigante: possui a inscrição “Lycurgus”, ou Licurgo. O nome pode estar relacionado ao lendário legislador associado à fundação das instituições de Esparta ou, segundo outra possibilidade estudada pelos especialistas, ao famoso orador ateniense de mesmo nome.

O que os arqueólogos já sabem sobre o local?

A villa foi encontrada perto de Cesareia, antiga cidade portuária que teve enorme importância durante o domínio romano. A região reuniu residências luxuosas, edifícios públicos e complexos frequentados pela elite, cenário compatível com a presença de esculturas decorativas de alto valor.

Alguns elementos ajudam a entender o contexto da descoberta e, ao mesmo tempo, aumentam o mistério:

  • As esculturas foram encontradas no último dia da escavação arqueológica.
  • As duas peças estavam posicionadas de cabeça para baixo dentro do tanque.
  • Os bustos já eram antigos quando partes do complexo foram usadas no período bizantino.
  • Uma das esculturas traz uma inscrição ligada ao nome Licurgo.
Região costeira de Cesareia concentrava residências de elite e edifícios aristocráticos.
Região costeira de Cesareia concentrava residências de elite e edifícios aristocráticos. - Créditos: Yoli Schwartz / Autoridade de Antiguidades de Israel

Por que alguém esconderia esculturas dentro de um tanque?

Essa continua sendo a principal pergunta. Os arqueólogos consideram a possibilidade de as peças terem sido guardadas deliberadamente durante um momento de conflito ou instabilidade. Colocá-las em um tanque fora de uso poderia ter sido uma tentativa de protegê-las contra roubo, destruição ou saque.

Também é possível que os bustos tivessem pertencido anteriormente a um edifício público, uma casa de banhos ou uma residência abastada e depois fossem transferidos para a villa. O fato de terem sido colocados cuidadosamente de cabeça para baixo sugere que sua presença ali não foi simplesmente resultado do abandono casual do local.

O mistério poderá ser resolvido?

As esculturas ainda precisam passar por limpeza, conservação e estudos detalhados. A análise do mármore, das inscrições, do estilo artístico e do próprio contexto arqueológico poderá ajudar a esclarecer onde foram produzidas, quem representavam e em que momento deixaram de ser objetos expostos para se transformar em peças escondidas.

Por enquanto, a imagem permanece irresistível: alguém, há muitos séculos, pegou duas esculturas pesadas e valiosas e decidiu colocá-las de cabeça para baixo dentro de um tanque de vinho. Agora que foram encontradas por causa de uma ferrovia moderna, descobrir o motivo daquele gesto pode ser a parte mais fascinante da história.