Uma guerra brutal acontece sob o solo: formigas atacam formigueiros vizinhos para sequestrar larvas e aumentar sua força de trabalho

Em algumas florestas, uma colônia de formigas pode ser atacada não apenas por predadores, mas por outras formigas interessadas em roubar suas crias.

Em algumas florestas, uma colônia de formigas pode ser atacada não apenas por predadores, mas por outras formigas interessadas em roubar suas crias. As invasoras levam larvas e pupas para o próprio ninho, onde as jovens capturadas crescem e passam a trabalhar para a colônia inimiga como se tivessem nascido ali.

O comportamento existe e é chamado pelos cientistas de parasitismo social dulótico.
O comportamento existe e é chamado pelos cientistas de parasitismo social dulótico. - Imagem gerada por IA

As formigas realmente escravizam outras colônias?

O comportamento existe e é chamado pelos cientistas de parasitismo social dulótico. O termo popular “escravização” descreve o uso das operárias de outra espécie, mas não deve ser confundido com a escravidão humana. Entre as formigas, trata-se de uma estratégia evolutiva baseada no roubo de indivíduos ainda em desenvolvimento.

Uma pesquisa publicada em 2021 por Michael Borowiec e colaboradores mostrou que o parasitismo social surgiu diversas vezes ao longo da evolução das formigas. Mais de 400 espécies socialmente parasitas são conhecidas, embora apenas parte delas realize ataques organizados para capturar crias de colônias vizinhas.

Parasitismo dulótico baseia-se no sequestro de larvas de colônias.
Parasitismo dulótico baseia-se no sequestro de larvas de colônias. - Imagem gerada por IA.

Como acontece o ataque ao formigueiro?

As formigas parasitas localizam um ninho de uma espécie compatível e organizam uma incursão. Durante o confronto, podem expulsar ou matar defensoras antes de retirar larvas e pupas. As crias capturadas são transportadas para o formigueiro invasor, onde completam o desenvolvimento cercadas pelos odores da nova colônia.

Quando chegam à fase adulta, essas operárias passam a alimentar larvas, limpar câmaras, buscar comida e defender o ninho que as capturou. Um estudo de Raphaël Blatrix e colaboradores mostrou que a experiência inicial e os sinais químicos recebidos após o nascimento ajudam as formigas a reconhecer aquela colônia como sua.

Quais espécies adotam essa estratégia?

O comportamento aparece em grupos como Polyergus, Formica, Temnothorax e Protomognathus. Algumas parasitas conseguem realizar tarefas comuns, enquanto outras se tornaram tão especializadas em atacar que dependem das operárias capturadas para cuidar das crias, organizar o ninho e até fornecer alimento.

  • Invasão de formigueiros próximos;
  • Roubo de larvas e pupas;
  • Uso de sinais químicos para integração;
  • Dependência do trabalho das espécies capturadas;
  • Novos ataques para renovar a força de trabalho.

Pesquisas sobre Protomognathus americanus mostram que a relação pode desencadear uma verdadeira corrida evolutiva. Enquanto as invasoras aperfeiçoam reconhecimento, camuflagem química e combate, as espécies atacadas desenvolvem maior agressividade e respostas específicas para identificar o parasita antes que ele alcance suas crias.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Manual do Mundo mostrando como é a vida das formigas dentro do formigueiro.

As operárias capturadas podem reagir?

Elas não são completamente passivas. Em um estudo publicado em 2009 por Alexandra Achenbach e Susanne Foitzik, operárias capturadas do gênero Temnothorax destruíram grande parte das pupas das formigas parasitas. Essa reação reduz o número de futuras invasoras e pode proteger indiretamente colônias aparentadas na vizinhança.

Os pesquisadores chamaram o comportamento de rebelião, mas ele não depende de planejamento consciente. As operárias podem identificar diferenças químicas nas crias e deixar de cuidar delas ou destruí-las. O resultado interfere no sucesso reprodutivo da colônia parasita e acrescenta uma nova etapa ao conflito evolutivo entre as espécies.

O que esse comportamento revela sobre a natureza?

As formigas mostram que sociedades altamente organizadas também podem explorar outras sociedades. O sistema depende de comunicação química, divisão de tarefas e reconhecimento do ninho, características normalmente associadas à cooperação. Nas espécies parasitas, essas mesmas ferramentas sociais foram transformadas em meios de invasão e sobrevivência.

Observar esse conflito ajuda a ciência a compreender como cooperação, exploração e defesa evoluem lado a lado. A próxima vez que um formigueiro parecer apenas uma fila organizada, vale olhar com mais atenção: sob o solo pode existir uma disputa complexa, capaz de alterar o destino de colônias inteiras.