Uma inteligência artificial analisou o deserto de Nazca e encontrou 303 figuras que haviam passado despercebidas por séculos

Sistema analisou milhares de imagens do deserto peruano e guiou arqueólogos até centenas de figuras que haviam permanecido ocultas por séculos.

Durante séculos, centenas de figuras permaneceram praticamente invisíveis no deserto de Nazca, no Peru. Agora, uma inteligência artificial ajudou arqueólogos a localizar 303 geoglifos figurativos desconhecidos, quase dobrando o número de desenhos desse tipo documentados e revelando novas pistas sobre quem os criou e para que poderiam ter servido.

Pesquisadores analisaram imagens aéreas de alta resolução cobrindo cerca de 629 quilômetros quadrados da Pampa de Nazca.
Pesquisadores analisaram imagens aéreas de alta resolução cobrindo cerca de 629 quilômetros quadrados da Pampa de Nazca. - Imagem gerada por IA

Como a inteligência artificial encontrou figuras escondidas no deserto?

Pesquisadores analisaram imagens aéreas de alta resolução cobrindo cerca de 629 quilômetros quadrados da Pampa de Nazca. Como muitos geoglifos menores têm apenas cerca de nove metros e são difíceis de perceber do alto, a equipe treinou um sistema de IA para reconhecer sinais que poderiam indicar desenhos antigos no terreno.

Segundo o estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, a IA produziu 47.410 áreas candidatas. Após uma triagem humana, 1.309 locais foram considerados promissores. Arqueólogos então visitaram centenas deles entre setembro de 2022 e fevereiro de 2023 para confirmar o que realmente existia no solo.

Inteligência artificial identifica centenas de novos geoglifos no deserto peruano.
Inteligência artificial identifica centenas de novos geoglifos no deserto peruano. - Créditos: Imagem criada por IA.

Quantos novos geoglifos foram confirmados pelos arqueólogos?

O trabalho de campo resultou na confirmação de 303 novos geoglifos figurativos em relevo. Entre eles, 178 haviam sido indicados diretamente pela inteligência artificial. Outros 66 apareceram em áreas onde o sistema já havia apontado pelo menos uma figura, enquanto 59 foram identificados durante a própria inspeção dos pesquisadores.

  • O sistema analisou imagens de aproximadamente 629 quilômetros quadrados do deserto.
  • A inteligência artificial marcou 47.410 regiões com potencial para conter geoglifos.
  • Os arqueólogos selecionaram 1.309 candidatos considerados mais promissores.
  • A pesquisa confirmou 303 novos geoglifos figurativos e 42 desenhos geométricos desconhecidos.

Antes da pesquisa, eram conhecidos 430 geoglifos figurativos de Nazca, incluindo 380 desenhos em relevo e 50 figuras lineares de maiores dimensões. Com as novas descobertas, o conjunto analisado chegou a 733 figuras figurativas, fornecendo aos cientistas uma amostra muito maior para compreender os padrões existentes na região.

O que as novas figuras representam?

A ampliação do catálogo revelou uma diferença marcante entre os tipos de desenhos. Entre os geoglifos menores em relevo, 81,6% representam seres humanos ou elementos ligados à atividade humana. Humanoides correspondem a 33,8%, cabeças decapitadas a 32,9% e camelídeos domesticados a 14,9% do conjunto analisado.

Já entre os 50 grandes geoglifos figurativos lineares conhecidos, 64% representam animais selvagens. As novas figuras incluem pessoas, camelídeos, pássaros, felinos e orcas, além de cenas envolvendo humanos e animais. Para a equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Yamagata, essa diferença pode refletir funções sociais distintas.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Canal History Brasil falando sobre os misteriosos desenhos das Linhas de Nazca.

Por que a localização dos desenhos também chamou atenção?

Os pesquisadores descobriram que grupos de geoglifos em relevo aparecem, em média, a apenas 43 metros das antigas trilhas. Algumas figuras podiam ser vistas diretamente por quem caminhava por essas rotas, enquanto outras surgiam apenas quando as pessoas se aproximavam, sugerindo que poderiam transmitir informações a indivíduos ou pequenos grupos.

Os grandes desenhos lineares apresentam outro padrão. Eles ficam, em média, a 34 metros de linhas e trapézios que compõem a rede geométrica de Nazca. Os autores do estudo, que contou também com colaboração da IBM Research, levantam a hipótese de que essas figuras maiores poderiam estar ligadas a atividades comunitárias ou rituais.

O que essa descoberta muda na arqueologia de Nazca?

A pesquisa mostra que a inteligência artificial não substituiu o trabalho dos arqueólogos, mas tornou possível procurar em uma área gigantesca com muito mais eficiência. A triagem dos resultados exigiu cerca de 1.200 horas, enquanto a verificação em campo consumiu outras 1.440, demonstrando que a tecnologia funcionou principalmente como uma ferramenta para direcionar especialistas aos locais mais promissores.

O mais intrigante é que centenas de figuras permaneceram escondidas mesmo em uma das paisagens arqueológicas mais estudadas do mundo. Se a IA conseguiu revelar tanto em Nazca, outras áreas ainda podem guardar descobertas semelhantes. É hora de acompanhar de perto essa combinação entre arqueologia e tecnologia, porque parte da história humana pode estar esperando para ser reconhecida em imagens que já temos.