Uma mulher encontrou uma lápide romana de quase 2 mil anos no quintal da própria casa nos Estados Unidos e ninguém sabia como ela havia chegado ali

A peça funerária de um antigo militar romano cruzou o Atlântico, passou décadas esquecida e só teve sua origem descoberta após uma investigação arqueológic

Uma placa de mármore coberta por vegetação em um quintal de Nova Orleans parecia, à primeira vista, apenas mais um objeto antigo esquecido pela cidade. Mas a antropóloga Daniella Santoro descobriu algo muito mais improvável: a peça tinha quase 2 mil anos, pertencia a um soldado romano e havia cruzado o Atlântico antes de terminar escondida no jardim de uma casa na Louisiana.

O casal chegou a considerar a possibilidade de a casa estar sobre algum antigo cemitério.
O casal chegou a considerar a possibilidade de a casa estar sobre algum antigo cemitério.Imagem gerada por inteligência artificial

Como uma lápide romana apareceu em Nova Orleans?

A descoberta aconteceu no início de 2025, quando Daniella Santoro, antropóloga da Universidade Tulane, e seu marido, Aaron Lorenz, limpavam a vegetação nos fundos de sua propriedade no bairro histórico de Carrollton. Sob as plantas, encontraram uma pesada placa de mármore gravada em latim.

O casal chegou a considerar a possibilidade de a casa estar sobre algum antigo cemitério. Santoro procurou especialistas, entre eles o arqueólogo D. Ryan Gray, da Universidade de Nova Orleans, e Susann Lusnia, arqueóloga clássica da Tulane. Rapidamente, surgiu uma hipótese muito mais surpreendente: a inscrição parecia genuinamente romana.

Limpeza em jardim residencial revela placa de mármore com inscrição latina.
Limpeza em jardim residencial revela placa de mármore com inscrição latina. - Créditos: FBI de Nova Orleans

Quem era o homem citado naquela pedra?

A tradução da inscrição revelou que a lápide havia sido feita para Sextus Congenius Verus. Ele morreu aos 42 anos, depois de servir durante 22 anos, e estava ligado à frota romana de Miseno. O registro funerário transformou aquela pedra aparentemente anônima em uma peça identificável da história da Roma antiga.

Os pesquisadores compararam as informações com registros arqueológicos e encontraram uma correspondência decisiva. Uma lápide com aquelas características constava como desaparecida do Museu Arqueológico Nacional de Civitavecchia, cidade costeira italiana próxima de Roma. O mistério deixava de ser sobre o que a pedra era e passava a ser como ela chegou aos Estados Unidos.

Que pistas ajudaram a reconstruir a viagem da peça?

Inicialmente, os arqueólogos sabiam que a região de Civitavecchia havia sido intensamente bombardeada pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial e que o museu sofrera grandes danos. Isso abriu a possibilidade de a lápide ter desaparecido em meio ao caos do conflito e seguido um caminho difícil de rastrear.

A história começou a fazer sentido quando uma antiga moradora da casa reconheceu a pedra após a descoberta ganhar repercussão:

  • Erin Scott O’Brien reconheceu a lápide como um objeto que havia pertencido aos seus avós.
  • Seu avô, Charles Paddock, conheceu a futura esposa, Adele, enquanto servia na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.
  • O casal manteve a pedra exposta em casa durante anos sem que a família soubesse sua verdadeira origem.
  • Mais tarde, O’Brien colocou a peça no jardim e a esqueceu quando vendeu a casa em 2018.
Origem exata da aquisição familiar permanece sem esclarecimento definitivo pelos parentes.
Origem exata da aquisição familiar permanece sem esclarecimento definitivo pelos parentes. - Créditos: Flickr

Ainda existe uma parte do mistério sem resposta?

Sim. A ligação familiar ajuda a explicar como a lápide terminou naquele quintal, mas não esclarece exatamente como os avós de O’Brien a obtiveram. Não se sabe se a peça foi comprada, recebida de alguém ou levada como lembrança da Europa depois da guerra. Familiares disseram não se lembrar de explicações sobre sua procedência.

Mesmo assim, a reconstrução eliminou boa parte do enigma. Uma antiguidade que havia passado décadas sem identificação em uma residência americana pôde ser conectada a um museu italiano, a um militar que esteve na Europa durante a guerra e, por fim, ao homem romano para quem a inscrição havia sido criada séculos antes.

O que aconteceu com a lápide depois da descoberta?

Quando os especialistas confirmaram a origem, Santoro e os pesquisadores decidiram que a peça deveria retornar à Itália. Ela foi entregue à equipe especializada em crimes contra a arte do FBI e, em 29 de abril de 2026, foi repatriada durante uma cerimônia em Roma junto com mais de 300 outros artefatos recuperados pelas autoridades.

A lápide deverá voltar ao Museu Arqueológico Nacional de Civitavecchia, encerrando uma viagem que começou na Roma antiga, atravessou uma guerra e terminou por décadas em um jardim americano. A história é um lembrete fascinante: ao encontrar uma pedra estranha no quintal, talvez valha a pena olhar duas vezes, porque alguns mistérios históricos podem estar literalmente debaixo das plantas.