Uma nova estrada deveria passar pelo interior da França, mas as escavações revelaram uma enorme propriedade romana com jardim, fonte e piso aquecido
A arqueologia preventiva encontrou em Sainte-Nitasse uma propriedade monumental que ajuda a reconstruir o padrão de vida da elite romana na Gália.
Uma nova rota rodoviária deveria simplesmente contornar parte de uma estrada regional perto de Auxerre, na França. Antes das máquinas avançarem, porém, a arqueologia preventiva encontrou algo muito maior que objetos dispersos: uma villa romana monumental, com áreas residenciais, jardim ornamental, fonte, banhos e até um sistema capaz de aquecer o piso há quase dois mil anos.

Como uma estrada levou à descoberta da villa?
O sítio de Sainte-Nitasse apareceu durante os trabalhos preparatórios para uma alternativa à estrada D606, a poucos quilômetros de Auxerre. Segundo o Instituto Nacional Francês de Pesquisas Arqueológicas Preventivas, o INRAP, a escavação revelou uma construção romana de grandes dimensões, associada a uma propriedade rural ocupada entre os séculos I e III.
Vestígios romanos naquela área já eram conhecidos desde o século XIX, mas as investigações recentes mostraram uma escala inesperada. Os arqueólogos identificaram uma construção de aproximadamente 4 mil metros quadrados, suficiente para colocar Sainte-Nitasse entre as grandes villas da Gália romana.
- A área residencial possuía espaços sofisticados destinados aos moradores da propriedade.
- Um jardim de cerca de 450 metros quadrados ocupava uma posição central no conjunto.
- Fontes, reservatórios ornamentais e instalações de banho reforçam o caráter luxuoso do local.
- Partes da villa contavam com aquecimento sob o piso por meio de um sistema romano chamado hipocausto.

O que a arquitetura revela sobre os proprietários?
Para os arqueólogos, paredes e pisos contam tanto quanto moedas ou cerâmicas. O conjunto de Sainte-Nitasse possuía uma pars urbana, destinada à residência e ao conforto dos proprietários, e áreas relacionadas às atividades agrícolas. Essa separação mostra que não se tratava apenas de uma fazenda, mas de uma propriedade organizada para produção e demonstração de status.
Alexandre Burgevin, arqueólogo do INRAP responsável pela escavação, considera possível imaginar o lugar como uma villa aristocrática, pertencente a alguém rico e com responsabilidades na região. A proximidade com a antiga Auxerre também levanta a hipótese de que seu proprietário tivesse influência municipal e mantivesse trabalhadores na propriedade.
Como funcionava o piso aquecido dos romanos?
Entre os recursos encontrados está o hipocausto, tecnologia usada para aquecer ambientes sem depender de uma fogueira dentro do cômodo. O piso era elevado sobre pequenos suportes, criando um espaço vazio. O ar quente produzido em uma fornalha circulava sob o chão e, em alguns sistemas, também passava por canais nas paredes.
Encontrar essa estrutura em uma propriedade rural chama atenção porque sua construção exigia planejamento, mão de obra e combustível. Em Sainte-Nitasse, o hipocausto se soma a banhos com piscinas e outros elementos de conforto, permitindo reconstruir um cotidiano no qual riqueza e engenharia estavam presentes muito além dos grandes centros romanos.

Por que o jardim também impressionou os arqueólogos?
O espaço residencial incluía um jardim de aproximadamente 450 metros quadrados, delimitado por uma fonte de um lado e por um reservatório ornamental do outro. Não era uma área criada apenas para cultivo. Sua posição e integração à arquitetura indicam que também servia ao lazer e à exibição de prestígio para moradores e visitantes.
Segundo o INRAP, grandes villas da Gália costumavam reunir materiais nobres, mosaicos, pinturas, jardins, fontes e instalações de banho. Em Sainte-Nitasse, vários desses elementos aparecem juntos. A propriedade oferece, portanto, pistas concretas sobre como uma elite provincial romana procurava reproduzir padrões sofisticados de conforto e representação social.
O que ainda pode aparecer antes de a estrada avançar?
Mesmo com estruturas impressionantes já expostas, a história do local permanece incompleta. Burgevin destacou que há paredes bem construídas, mas relativamente poucos objetos, o que torna novas escavações importantes para estabelecer a cronologia e entender como os ambientes foram usados antes de mudanças ocorridas nos séculos posteriores.
A descoberta mostra por que obras modernas frequentemente caminham lado a lado com a arqueologia preventiva. Sob o traçado de uma estrada planejada para o presente surgiu uma casa com jardim, banhos e piso aquecido de quase dois mil anos atrás. Antes que o trânsito passe por ali, cada camada investigada pode revelar mais sobre quem viveu com tamanho luxo na antiga Gália.