Uma raposa consegue encontrar uma presa escondida sob a neve usando uma força que nenhum de nós consegue enxergar

Pesquisas indicam que a raposa-vermelha combina audição e orientação magnética para aumentar a precisão de ataques contra presas escondidas.

Debaixo de uma camada de neve, um pequeno roedor pode estar completamente invisível. Ainda assim, a raposa-vermelha é capaz de ouvir seus movimentos, calcular o ataque e mergulhar exatamente onde a presa está. O detalhe mais surpreendente é que pesquisas indicam que ela pode combinar sua audição com o campo magnético da Terra, transformando uma força invisível em uma espécie de sistema natural de mira.

A protagonista dessa habilidade é a raposa-vermelha, Vulpes vulpes.
A protagonista dessa habilidade é a raposa-vermelha, Vulpes vulpes. - Imagem gerada por IA

Qual animal usa o campo magnético para caçar?

A protagonista dessa habilidade é a raposa-vermelha, Vulpes vulpes. Cientistas observaram que, durante uma técnica de caça conhecida como mousing, na qual o animal salta sobre pequenos mamíferos escondidos na vegetação ou sob a neve, determinados sentidos de ataque apresentavam resultados muito melhores do que outros.

Isso chamou atenção porque muitas espécies usam magnetorrecepção para orientação e migração, mas a raposa parece empregar a informação magnética em uma situação diferente. O estudo publicado em 2011 na revista Biology Letters sugeriu que o campo terrestre poderia funcionar como referência durante o cálculo do salto contra uma presa que ela não consegue enxergar.

Análise do comportamento revelou salto direcionado por forças invisíveis da Terra.
Análise do comportamento revelou salto direcionado por forças invisíveis da Terra. - Créditos: Imagem criada por IA.

Como os cientistas perceberam esse comportamento?

Pesquisadores acompanharam raposas caçando em diferentes locais e registraram a direção dos saltos e o resultado de cada tentativa. Quando as presas estavam escondidas em vegetação alta ou sob a neve, os ataques bem-sucedidos ficaram concentrados principalmente em uma direção aproximadamente nordeste, enquanto saltos feitos em outras direções tiveram desempenho inferior.

  • A raposa primeiro escuta os pequenos movimentos produzidos pela presa escondida.
  • Ela ajusta a posição do corpo antes de executar seu característico salto de caça.
  • Os ataques na direção magnética preferida apresentaram uma taxa de sucesso muito maior.
  • Os pesquisadores propuseram que o campo magnético pode servir como uma referência para calcular o ataque.

Segundo o National Park Service dos Estados Unidos, ataques alinhados aproximadamente ao nordeste chegaram a apresentar sucesso próximo de 73%, contra cerca de 18% em outras direções. É uma diferença impressionante, embora os próprios trabalhos científicos tratem o mecanismo de magnetorrecepção da raposa como uma hipótese que ainda precisa ser compreendida em detalhes.

O campo magnético funciona como uma mira?

Uma das explicações propostas é que a raposa utilize o campo terrestre como uma espécie de telêmetro natural. No Hemisfério Norte, as linhas do campo magnético entram no solo formando um determinado ângulo. Ao combinar essa referência relativamente constante com a direção do som produzido pela presa, o animal poderia estimar melhor onde realizar o salto.

Isso não significa que a raposa enxergue uma seta apontando para o alimento. Os cientistas ainda não sabem exatamente como o animal percebe a informação magnética nem qual estrutura biológica estaria envolvida. O mais seguro é dizer que os padrões observados são compatíveis com o uso de uma referência magnética para melhorar a precisão da caça.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Discovery mostrando o comportamento de mergulhar que as raposas-vermelhas possuem.

Por que a audição continua sendo fundamental?

O magnetismo não parece substituir os sentidos tradicionais. Antes de saltar, a raposa depende principalmente da audição extraordinariamente sensível para detectar roedores escondidos. Suas grandes orelhas móveis ajudam a localizar sons muito discretos, permitindo que ela identifique uma presa mesmo quando a neve impede qualquer contato visual direto.

O possível sentido magnético entraria justamente depois dessa localização inicial, funcionando como informação adicional para posicionar o corpo e calcular o ponto do ataque. Essa combinação ajuda a explicar por que a raposa consegue realizar aqueles saltos altos e mergulhos de cabeça vistos frequentemente durante caçadas em campos cobertos de neve.

O que torna essa descoberta tão extraordinária?

Tartarugas, aves migratórias, peixes e outros animais são conhecidos por responder ao campo magnético terrestre principalmente durante deslocamentos. A raposa tornou o assunto ainda mais curioso porque o estudo sugeriu uma aplicação ligada diretamente à predação, mostrando que uma informação usada como bússola por algumas espécies pode assumir outra função na natureza.

Na próxima vez que vir uma raposa mergulhando na neve, repare que existe muito mais acontecendo do que um simples salto. Audição, cálculo espacial e possivelmente uma força invisível que atravessa todo o planeta podem participar de um único ataque. É um lembrete poderoso de quantos sentidos animais ainda estamos apenas começando a compreender.