Unamuno, escritor e filósofo: “Cada um é, na verdade, três: aquele que se acredita ser, aquele que os outros acreditam e aquele que realmente é.”
Em seu ensaio Sobre a consequência, a sinceridade, Unamuno recorda uma teoria de Oliver Wendell Holmes sobre os “três Juanes”
Miguel de Unamuno tornou célebre uma reflexão segundo a qual convivemos com três versões de nós mesmos: quem realmente somos, quem acreditamos ser e quem os outros imaginam que somos. Há, porém, uma precisão importante: a ideia dos “três eus” não nasceu com o escritor espanhol. Unamuno atribuiu explicitamente a formulação ao norte-americano Oliver Wendell Holmes e a utilizou para desenvolver uma questão que atravessa sua própria obra, a dificuldade de construir uma identidade autêntica sob o peso da imagem social.

De onde vem realmente a ideia de que cada pessoa possui três versões?
Em seu ensaio Sobre a consequência, a sinceridade, Unamuno recorda uma teoria de Oliver Wendell Holmes sobre os “três Juanes”. Segundo ela, existe o indivíduo como ele é, como acredita ser e como é percebido pelos demais. O espanhol não apresenta a ideia como criação própria: chama-a de uma engenhosa observação do escritor norte-americano e parte dela para desenvolver sua reflexão.
Unamuno já havia mencionado essa divisão em textos anteriores e voltaria a ela mais tarde. A estrutura dos três eus tornou-se especialmente útil para pensar a influência que a sociedade exerce sobre a percepção que uma pessoa constrói de si mesma.
- Existe a pessoa como ela efetivamente é;
- Existe a imagem que ela constrói de si própria;
- Existe a pessoa imaginada pelos outros;
- As três versões não precisam coincidir;
- A percepção externa pode influenciar a própria identidade.
Por que aquilo que acreditamos ser pode não coincidir com quem somos?
A imagem pessoal é construída a partir de lembranças, valores, expectativas e interpretações das próprias escolhas. Ninguém observa a si mesmo de maneira completamente neutra. Podemos exagerar determinadas virtudes, minimizar defeitos ou continuar presos a uma definição criada muitos anos antes, mesmo depois de nossas atitudes terem mudado.
Quanto a opinião dos outros interfere naquilo que pensamos sobre nós mesmos?
Esse é um dos pontos que mais interessaram a Unamuno. Para ele, a pessoa que os outros imaginam não permanece simplesmente do lado de fora. Reputação, expectativas familiares, julgamentos e papéis sociais podem começar a interferir na maneira como alguém se percebe e até nas escolhas que faz para continuar parecendo coerente diante dos demais.
Uma pessoa conhecida como “forte”, por exemplo, pode sentir dificuldade de demonstrar vulnerabilidade. Alguém considerado sempre responsável pode evitar mudar de caminho apenas para não decepcionar quem espera determinado comportamento.
- A família cria expectativas sobre quem devemos ser;
- O trabalho reforça determinados papéis sociais;
- Amigos conhecem apenas algumas facetas da personalidade;
- A reputação pode dificultar mudanças legítimas;
- A aprovação externa pode modificar a própria autoimagem.

A imagem pessoal é construída a partir de lembranças, valores, expectativas e interpretações das próprias escolhas.Imagem gerada por inteligência artificial
As redes sociais criaram uma quarta versão de cada pessoa?
A tecnologia tornou mais visível um conflito que já existia no tempo de Unamuno. Fotos escolhidas, textos publicados, conquistas compartilhadas e momentos omitidos permitem construir deliberadamente uma versão pública da própria vida. Essa imagem pode estar próxima da experiência real ou representar apenas uma pequena seleção dela.
- Publicamos alguns acontecimentos e escondemos outros;
- Escolhemos quais características enfatizar publicamente;
- A reação dos outros influencia novas publicações;
- Comparações podem alterar a percepção da própria vida;
- Uma identidade pública pode começar a exigir manutenção constante.
Para Unamuno, a identidade era ainda mais complexa do que apenas três pessoas
Quando retomou posteriormente a teoria de Oliver Wendell Holmes em Tres novelas ejemplares y un prólogo, Miguel de Unamuno levou a questão além. Além de quem somos, de quem acreditamos ser e de quem os outros acreditam que somos, interessava-lhe especialmente aquilo que desejamos chegar a ser. A identidade, nessa leitura, não é apenas algo encontrado no interior da pessoa, mas também algo construído por decisões, desejos e conflitos.
É isso que torna a reflexão mais profunda do que uma frase sobre ignorar a opinião alheia. As diferentes imagens de uma pessoa influenciam umas às outras continuamente, e talvez nenhuma delas consiga explicar sozinha quem ela é. O desafio apresentado por Unamuno está justamente nessa distância: perceber quais partes da identidade vieram da própria experiência, quais foram moldadas pelo olhar dos outros e quais ainda pertencem à pessoa que se deseja construir.