Víctor Algra, veterinário: “Deixar um cachorro sozinho por 24 horas é o limite máximo, não o ideal”

Entidade veterinária britânica recomenda no máximo quatro horas de ausência na rotina do cão

Deixar o cachorro sozinho em casa por um dia inteiro pode ser permitido por lei em alguns lugares, mas está longe de ser o recomendado. O alerta é do veterinário e divulgador espanhol Víctor Algra: segundo ele, as 24 horas previstas na legislação da Espanha são um teto legal, não uma referência para a rotina.

Em entrevista ao programa El Faro, da rádio Cadena SER, Algra explicou que o prazo não deveria guiar o dia a dia de nenhum tutor, de acordo com reportagem do Canal 26, da Argentina. Deixar ração, encher o pote de água e só voltar no dia seguinte parece suficiente para muita gente. Para o animal, não é.

Brinquedos interativos ajudam nos dias de ausência mais longa – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Brinquedos interativos ajudam nos dias de ausência mais longa – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que diz a lei espanhola

A regra citada pelo veterinário está na Lei 7/2023 de bem-estar animal, publicada no Boletim Oficial do Estado. O artigo 27 proíbe deixar qualquer animal de companhia sem supervisão por mais de três dias seguidos e, no caso dos cães, fixa o limite em 24 horas consecutivas.

É justamente esse número que Algra pede para não confundir com recomendação. Ele marca o ponto a partir do qual o tutor pode ser punido, e não o tempo que um cachorro aguenta bem sem companhia.

No Brasil, a legislação federal não define um número de horas. Maus-tratos a animais são crime pela Lei de Crimes Ambientais, a 9.605, de 1998, e a Lei 14.064, de 2020, aumentou a pena quando a vítima é cão ou gato.

Quantas horas um cachorro aguenta sozinho?

Não existe um número que sirva para todos os cães. Idade, saúde, temperamento e o histórico de cada animal mudam muito a tolerância à ausência dos tutores, como lembra a reportagem do Canal 26.

Como referência, a PDSA, entidade veterinária britânica, orienta que quatro horas é o máximo que um cachorro deveria ficar sozinho de forma rotineira. A própria PDSA ressalva que, para um filhote muito ativo, quatro horas costumam ser tempo demais, enquanto um cão mais velho pode lidar bem com esse período. A RSPCA, outra organização britânica de proteção animal, segue a mesma linha, segundo o Canal 26.

Filhotes precisam sair com mais frequência para fazer as necessidades e ainda estão aprendendo a lidar com a separação. Cães idosos ou com problemas de saúde também pedem cuidados mais frequentes.

Água e comida não bastam

Cachorros são animais sociais e precisam de companhia humana, reforça a PDSA. Por isso, a entidade sugere que quem trabalha fora o dia todo pense em alternativas antes de deixar o animal sozinho por muitas horas:

  • voltar para casa na hora do almoço, quando possível;
  • pedir a um vizinho ou amigo que faça uma visita;
  • contratar um passeador ou cuidador profissional;
  • usar uma creche para cães, com a vacinação em dia.

Para os dias em que a ausência for maior do que o normal, a orientação é deixar brinquedos interativos ou comedouros que entretenham o animal, desde que sejam seguros para ele usar sem supervisão. E o pote de água precisa estar limpo, já que só trocar a água do pote não remove a sujeira que gruda nas paredes.

Sinais de que o cachorro sofre quando fica sozinho

Muitas vezes o mal-estar aparece justamente quando ninguém está em casa. Latidos persistentes, choro, objetos destruídos, tentativas de fuga e xixi ou cocô fora do lugar podem indicar que o cachorro não tolera bem a separação, segundo a PDSA.

Há sinais mais discretos também, citados pelo Canal 26, como andar de um lado para o outro, ofegar, tremer, babar demais ou ficar parado em excesso. Pequenos gestos, como lamber os lábios sem comida por perto, podem ser um dos primeiros sinais de estresse.

Uma câmera doméstica, sugere a reportagem, ajuda a ver o que acontece durante a ausência e a perceber se o animal consegue descansar ou passa o tempo agitado.

O que fazer se notar ansiedade de separação

A PDSA recomenda levar o cachorro ao veterinário antes de tudo, porque dor e outros problemas de saúde podem deixar o animal mais ansioso quando fica só. Descartada uma causa clínica, um especialista em comportamento animal é quem tem mais condições de ajudar.

Outra orientação da entidade: nunca castigar o cão por estragos ou acidentes. Ele já está assustado, e a punição só reforça a ideia de que ficar sozinho é ruim. O caminho é acostumar o animal aos poucos, aumentando o tempo fora de casa de forma gradual.

No fim, a conta é simples: a lei diz quanto tempo é proibido, mas é a rotina do cachorro que mostra quanto tempo é demais.