Vinte mortos, nenhuma presença masculina: a descoberta que transformou o “Berço da Humanidade” em um mistério ainda maior

Vinte indivíduos analisados e nenhum marcador masculino.

Vinte indivíduos analisados e nenhum marcador masculino. O resultado obtido em fósseis de Homo naledi encontrados na caverna Rising Star, na África do Sul, transformou uma coleção já enigmática em um mistério ainda maior. A descoberta foi possível graças a proteínas preservadas no esmalte dos dentes, capazes de revelar informações mesmo quando o DNA desapareceu.

O estudo examinou 23 amostras dentárias pertencentes a pelo menos 20 indivíduos de Homo naledi.
O estudo examinou 23 amostras dentárias pertencentes a pelo menos 20 indivíduos de Homo naledi. - Imagem gerada por IA

O que os cientistas encontraram na caverna Rising Star?

O estudo examinou 23 amostras dentárias pertencentes a pelo menos 20 indivíduos de Homo naledi. Os restos foram recuperados no sistema de cavernas Rising Star, localizado no chamado Berço da Humanidade, região sul-africana conhecida pela grande quantidade de fósseis ligados à evolução humana.

Ao analisar as proteínas do esmalte, os pesquisadores encontraram apenas sinais associados ao cromossomo X. Nenhuma das amostras apresentou a proteína ligada ao cromossomo Y usada para identificar indivíduos masculinos. O resultado indica que todos os exemplares estudados provavelmente pertenciam a indivíduos biologicamente femininos.

Estudo de fósseis sul-africanos revela ausência de marcadores masculinos no material colhido.
Estudo de fósseis sul-africanos revela ausência de marcadores masculinos no material colhido. - Imagem gerada por IA.

Como proteínas substituíram o DNA perdido?

O clima quente de grande parte da África acelera a degradação do DNA antigo, dificultando pesquisas moleculares em fósseis com centenas de milhares de anos. As proteínas do esmalte dentário, porém, são mais resistentes e podem permanecer preservadas por períodos muito maiores, abrindo uma nova janela para estudar espécies humanas extintas.

Publicado em junho de 2026 na revista científica Cell, o trabalho liderado pela bióloga molecular Palesa Madupe utilizou uma técnica de desgaste ácido microscópico. O procedimento remove uma quantidade mínima do esmalte e permite identificar peptídeos ligados aos genes AMELX e AMELY.

Por que a ausência de indivíduos masculinos surpreendeu?

Antes da análise molecular, alguns fósseis maiores haviam sido classificados como masculinos com base no tamanho dos ossos e dentes. A nova evidência sugere que essas diferenças podem representar apenas variações entre indivíduos femininos, obrigando especialistas a rever antigas interpretações sobre o corpo e a diversidade da espécie.

A descoberta também levanta perguntas que ainda não podem ser respondidas com segurança. Entre as principais possibilidades discutidas pelos pesquisadores estão:

  • Uma seleção intencional de indivíduos femininos para deposição na caverna;
  • Uma amostra arqueológica incompleta, na qual restos masculinos ainda não foram encontrados;
  • Uma característica genética rara que teria dificultado a detecção do marcador masculino;
  • Uma organização social ou funerária desconhecida entre os grupos de Homo naledi.

    Falta de indivíduos masculinos desafia teorias anteriores sobre tamanho de ossos fósseis.
    Falta de indivíduos masculinos desafia teorias anteriores sobre tamanho de ossos fósseis. - Imagem gerada por IA.

A caverna poderia ter sido um espaço funerário feminino?

A hipótese mais intrigante é que Rising Star tenha recebido deliberadamente apenas indivíduos femininos. Caso seja confirmada, a caverna poderia representar um dos exemplos mais antigos de seleção por sexo em um espaço destinado aos mortos. Entretanto, os pesquisadores ressaltam que a presença dos corpos não comprova, sozinha, a realização de enterros.

O debate é especialmente importante porque o Homo naledi possuía um cérebro menor que o dos humanos modernos, embora apresentasse mãos, pés e pernas com características mais próximas das nossas. Evidências de comportamentos complexos poderiam mudar a ideia de que certas práticas dependiam necessariamente de cérebros maiores.

A nova técnica pode transformar o estudo da evolução humana

Mais do que explicar quem estava na caverna, a pesquisa demonstra que fósseis sem DNA ainda guardam informações biológicas valiosas. A paleoproteômica poderá ajudar a identificar sexo, parentesco e relações evolutivas em materiais africanos que permaneceram por décadas fora do alcance das análises genéticas tradicionais.

O mistério de Rising Star está longe de terminar, mas agora existem ferramentas mais poderosas para investigá-lo. Cada novo dente analisado poderá confirmar ou derrubar a hipótese de um grupo exclusivamente feminino. É hora de acompanhar essas descobertas, pois elas podem alterar profundamente o que sabemos sobre nossos antigos parentes.